A Arte de se Deixar Marcar: Existir é se Afetar

A Arte de se Deixar Marcar: Existir é se Afetar

“Existir é se afetar”

A psicanálise nos mostra que viver não é passar ileso pela experiência. Pelo contrário: existir é se deixar marcar, ser atravessado por encontros, perdas, afetos e desejos. Somos, de certa forma, feitos das impressões que o mundo deixa em nós — e também daquilo que deixamos no mundo.

Quando dizemos que existir é se afetar, reconhecemos que não há neutralidade na vida psíquica. Cada palavra ou gesto recebido toca algo em nós, mesmo quando não percebemos de imediato. O afeto, nesse sentido, não é apenas emoção passageira, mas uma força que nos move, que dá forma às nossas escolhas, que pode tanto nos aprisionar quanto nos abrir a novos caminhos.

Na clínica psicanalítica, vemos como cada sujeito é atravessado por marcas singulares: uma lembrança de infância, uma ausência, um olhar de aprovação, um silêncio. Essas experiências não são apenas “coisas do passado” — elas continuam vivas, influenciando a forma como nos relacionamos com nós mesmos e com o Outro.

Afetar-se é também reconhecer nossa vulnerabilidade. Muitas vezes tentamos nos blindar contra a dor, mas é justamente na possibilidade de sentir que encontramos também a capacidade de amar, criar, desejar. O que nos afeta nos transforma — seja pela via do sofrimento, seja pela via da descoberta.

A psicanálise não propõe eliminar os afetos, mas escutá-los. Dar lugar ao que nos toca pode revelar um caminho de autoconhecimento: entender por que certas palavras nos ferem, por que certos encontros nos alegram, por que repetimos situações que parecem sempre nos conduzir ao mesmo impasse.

No fim, existir é aceitar essa condição de estar em relação constante — com o mundo, com o Outro e consigo mesmo. Afetar-se é prova de que estamos vivos, de que nada nos é indiferente. É nessa abertura que se dá a possibilidade de mudança, criação e transformação.

Para continuar refletindo sobre o desejo e a subjetividade, acompanhe em: @psicanalistamanuela

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Manuela Mendes

Manuela Mendes

Sou pós-graduada em Psicanálise, Psicoterapia e Psicopedagogia, com cursos de aperfeiçoamento pela Escola Lacaniana do Rio de Janeiro. Atuo como terapeuta psicanalítica com escuta orientada pela teoria lacaniana. Sou colunista no Portal do Andreoli (www.portaldoandreoli.com.br), contribuindo com conteúdos voltados ao desenvolvimento humano e saúde mental. Acredito que palavras e ideias podem mudar o mundo.
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