Tudo pode começar com um bom dia

Tudo pode começar com um bom dia
Créditos: Copilot

Há duas semanas, eu estava no Colorado. Foi um fim de semana intenso, cheio de encontros, palestras e conversas. Apesar da intensidade dos dias, descobri que o meu querido amigo, que estava me hospedando em sua casa, se levantava todos os dias às 4h da manhã. Como eu normalmente me levanto às 5h, acabávamos nos encontrando na cozinha nesse horário. Tomávamos nosso café e começávamos a manhã com um bom bate-papo.

Logo depois, levávamos sua cachorrinha para um passeio de quase uma hora por uma linda região de floresta, lagos e campos de golfe. É assim em muitas partes de Denver e seus subúrbios: espaços verdes, trilhas, casas, lagos e pessoas caminhando logo cedo.

Todas as pessoas que encontrávamos correndo, caminhando ou passeando com seus cachorros nos cumprimentavam. Algumas paravam, conversavam e até brincavam com a cachorrinha. Havia uma espécie de cordialidade silenciosa entre pessoas que, na maioria das vezes, nem se conheciam.

Mas, no último dia, quando já estávamos chegando em casa, uma senhora passou por nós. Percebi que ela não nos cumprimentou. Achei estranho. Ela também não olhou para nós; não houve sequer aquela breve troca de olhares que normalmente acontece quando duas pessoas se cruzam no caminho.

Assim que ela passou, meu amigo disse: “Eu a vejo há 30 anos. São 30 anos em que nos cruzamos, e ela nunca me disse bom dia.”

Então ele me contou que, durante a pandemia, ela usava máscara e, quando o via, atravessava para o outro lado da rua. Fiquei pensando nisso. É possível alguém passar 30 anos ao lado de outra pessoa, seguindo praticamente o mesmo caminho, numa cidade onde não há milhões de habitantes, e nunca trocar sequer um “bom dia”? É muito provável que essas duas pessoas tenham se cruzado no supermercado, na farmácia, em algum restaurante ou em algum evento da cidade. Talvez tenham estado no mesmo lugar dezenas, talvez centenas de vezes.

O que leva alguém a evitar até mesmo um olhar? O que faz uma pessoa abaixar a cabeça para não correr o risco de um contato, de uma conversa ou de uma simples saudação?

Eu não sei a resposta. E talvez seja justamente isso que mais me chamou a atenção.

Porque, de alguma maneira, todos nós carregamos histórias que as outras pessoas não conhecem. Talvez aquela senhora tenha suas razões. Talvez tenha acontecido alguma coisa que meu amigo desconhece. Talvez ela simplesmente seja uma pessoa extremamente reservada. Talvez nunca tenha gostado de cumprimentar estranhos. Talvez exista uma história ali. Ou talvez não exista história alguma. Nós simplesmente não sabemos.

E comecei a pensar em quantas pessoas fazem isso conosco todos os dias. Pessoas que encontramos no elevador, no supermercado, no trabalho, na igreja, na academia, no caminho para casa. Pessoas que conhecemos apenas pelo rosto, mas sobre as quais não sabemos absolutamente nada.

Vivemos cercados de pessoas e, ainda assim, podemos passar anos sem realmente enxergá-las.

Talvez uma das coisas mais simples que podemos fazer seja justamente olhar. Dizer bom dia. Perguntar como alguém está. Saber o nome. Parar por alguns minutos.

Porque talvez a diferença entre simplesmente cruzar o caminho de alguém e realmente encontrá-lo seja muito pequena. Às vezes, ela começa com duas palavras: bom dia.

Fábio

Aeroporto de Fort Lauderdale 

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Fábio Muniz

Fábio Muniz

Fábio Muniz, originalmente do Brasil. Ele tem viajado ao redor do mundo nestes últimos 20 anos e acumulado inúmeras experiências multiculturais. Graduado em Administração de Empresa pela Universidade São Judas Tadeu. Possui um Máster em Marketing pela Universidade de Barcelona. Atualmente vive em Lyon, França. Ele é apaixonado pelo estudo das culturas, história e antropologia. Além de ter trabalhado com Marketing e Recursos Humanos, ele também é formado em Acompanhamento Espiritual pela North Park Theological Seminary onde recentemente também iniciou o seu Mestrado em Divindade. Fábio é autor do livro Upside Down Evangelism: How Not to Manipulate People in a Post Modern, Post Christian, Spiritually Alive Globalized World. Ele é casado com Johnna que nasceu nos Estados Unidos. Eles têm duas filhas: Sophia, nascida na Flórida, e Julia, nascida em Yokohama. Atualmente ele e Johnna formam parte da equipe Serve Globally, uma ONG com sede em Chicago, que tem projetos sociais espalhados por quase todo o mundo. Fábio e Johnna trabalham como pontes culturais, utilizam as suas experiências internacionais e através de 6 (seis) idiomas desenvolvem programas de integração cultural e social, seminários e palestras com o objetivo de servir a comunidade francesa, aos estrangeiros, imigrantes e refugiados. E-mail: [email protected] Blog: http://blogs.covchurch.org/fjmeurope/ Projetos: https://www.meetup.com/International-Hangout-and-Language-Exchange/ https://www.meetup.com/Coffee-and-English-at-Starbucks-Gratte-Ciel/ Instagram: @repensando_2017
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