POR QUE A COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA – CAA - É IMPORTANTE PARA A INCLUSÃO?

POR QUE A COMUNICAÇÃO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA – CAA - É IMPORTANTE PARA A INCLUSÃO?

Você já imaginou como seria ter vontade de dizer que está com fome, que alguma coisa está doendo, que não quer ir a determinado lugar, que está com medo ou simplesmente que ama alguém — e não conseguir fazer isso por meio da fala?

Para muitas pessoas com autismo não oralizadas, essa é uma realidade cotidiana. Mas não utilizar a fala oral não significa não se comunicar. Para essas pessoas, existem outros caminhos possíveis, e um deles é a Comunicação Aumentativa e Alternativa, a CAA.

A Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia explica que a Comunicação Suplementar e Alternativa utiliza recursos e estratégias para ampliar as possibilidades de comunicação de pessoas com necessidades complexas de comunicação. Esses recursos podem complementar uma fala existente ou oferecer outra forma de expressão quando a fala não é suficiente para que a pessoa consiga se comunicar.

Na prática, isso pode envolver gestos, símbolos, imagens, pranchas de comunicação e recursos tecnológicos, como aplicativos e dispositivos com voz sintetizada. O recurso utilizado depende das necessidades de cada pessoa, porque também na comunicação não existe uma solução única para todos.

Outubro chama atenção para essa realidade

Outubro é dedicado internacionalmente à conscientização sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa. A ISAAC — International Society for Augmentative and Alternative Communication — promove essa mobilização desde 2007, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre as diferentes formas pelas quais pessoas com necessidades complexas de comunicação podem se expressar.

Em 2026, o tema internacional escolhido pela ISAAC é “AAC in Everyday Life: Today, Tomorrow, and Beyond”, que podemos traduzir como “CAA na vida cotidiana: hoje, amanhã e além”.

 

Comunicação é muito mais do que pedir alguma coisa

Talvez muita gente imagine uma prancha de comunicação apenas como uma maneira de a criança pedir água, comida ou um brinquedo.

Mas existe muito mais comunicação possível ali.

Uma pessoa pode aprender a dizer que quer alguma coisa, mas também precisa conseguir dizer que não quer. Pode expressar desconforto, escolher entre duas opções, fazer uma pergunta, comentar alguma coisa ou contar algo que aconteceu.

Para uma família, conseguir compreender melhor aquilo que um filho está tentando comunicar pode transformar muitas situações do cotidiano.

Poder dizer “não” também importa

Quando falamos em comunicação, não podemos pensar apenas em ensinar uma pessoa a pedir.

Ela também precisa ter oportunidades para recusar, escolher, opinar e pedir ajuda.

Por isso, a comunicação tem uma relação muito próxima com a autonomia. Quanto maiores forem as possibilidades de uma pessoa manifestar suas vontades e necessidades, maiores também serão suas oportunidades de participar das decisões que envolvem a própria vida.

Isso se torna ainda mais importante quando pensamos em situações de dor, medo ou desconforto. Ter um meio de comunicação pode ampliar as possibilidades de a pessoa indicar que alguma coisa não está bem ou tentar contar o que aconteceu.

Imagine a diferença entre tentar interpretar um comportamento sem saber o que está provocando aquele sofrimento e conseguir perguntar “está doendo?” oferecendo à pessoa um meio para responder.

A CAA não elimina todas as dificuldades de comunicação, mas pode criar uma ponte onde antes existia uma enorme barreira.

 

A CAA não é apenas para crianças

Quando falamos sobre autismo e comunicação, é comum que nossos exemplos estejam concentrados nas crianças. Mas crianças crescem.

Existem adolescentes e adultos que também utilizam Comunicação Aumentativa e Alternativa, e a necessidade de comunicação não desaparece com a idade.

Um adolescente precisa conseguir expressar opiniões, gostos, incômodos e escolhas. Um adulto também precisa participar das decisões sobre sua rotina e sua própria vida.

Por isso, não devemos infantilizar uma pessoa simplesmente porque ela utiliza símbolos, uma prancha, um aplicativo ou outro dispositivo para se comunicar.

 

E na escola?

Se um aluno utiliza CAA e não tem acesso aos recursos que utiliza para se comunicar durante as aulas, suas possibilidades de fazer perguntas, responder ao professor, manifestar uma dúvida, fazer escolhas ou conversar com os colegas podem ficar muito reduzidas.

A Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia menciona expressamente o ambiente escolar entre os espaços nos quais a comunicação alternativa pode ser utilizada.

Por isso, inclusão não deve significar apenas colocar uma pessoa dentro de determinado espaço. É preciso também considerar quais ferramentas ela necessita para conseguir participar dele.

Um mundo inteiro pode estar esperando para ser ouvido

Talvez outubro seja uma boa oportunidade para aprendermos a olhar de maneira diferente para as pessoas que não utilizam a fala oral.

Quando encontrar uma pessoa não oralizada, não conclua automaticamente que ela não compreende ou que não tem nada a dizer. Se ela utiliza uma prancha, símbolos, um tablet ou qualquer outro sistema de comunicação, procure compreender como aquela comunicação acontece e dê a ela o tempo necessário para responder.

Não fale sobre essa pessoa como se ela não estivesse ali apenas porque ela não responde com a voz.

Converse com ela.

Pergunte e espere.

Porque não utilizar a voz não significa não ter voz.

Pode existir um mundo inteiro de pensamentos, sentimentos, preferências e histórias esperando apenas um caminho para conseguir chegar até nós.

Todas as pessoas com autismo devem ter suas formas de comunicação respeitadas e suas possibilidades de participação ampliadas.

Para finalizar, lembre-se de que aqui é um lugar para você se sentir acolhida. Se seu filho utiliza CAA ou se sua família está começando a conhecer essas possibilidades, me escreva sobre suas dúvidas ou compartilhe sua experiência. Será uma honra conhecer você melhor.

Um beijo e até a próxima quarta-feira.

Juçara Baleki
@querotratamento

Fontes consultadas

International Society for Augmentative and Alternative Communication – ISAAC - https://isaac-online.org/english/aac-awareness/

Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia – SBFa
https://www.sbfa.org.br/portal2017/campanhas/campanha-comunicacao-suplementar-e-alternativa/

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Juçara Baleki

Juçara Baleki

Advogada especializada em Direito à Saúde e Direitos das Pessoas com Autismo, palestrante, docente e mãe de um adolescente com Transtorno do Espectro do Autismo.
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