A Ilusão da Amizade na Sociedade Líquida: Quantos Amigos Cabem em uma Vida?

A Ilusão da Amizade na Sociedade Líquida: Quantos Amigos Cabem em uma Vida?
Créditos: Gemini

Um dos princípios mais belos que aprendi desde criança, em casa, com os meus pais, foi o valor do carinho e da amizade. Já naquela época eu percebia que eles cultivavam afeto e amizade com dezenas de pessoas. Hoje, posso dizer, sem exagero, centenas — algo que ficou muito claro na celebração dos 80 anos do meu pai. Tudo isso em uma era em que não existiam redes sociais. Os contatos eram feitos por telefone ou mantidos à distância por meio de cartas. Cada encontro humano acontecia sem a presença constante de um celular sendo checado a cada dez minutos, sem mundos paralelos onde o corpo está presente, mas a mente vagueia por todos os lados. A identidade não era medida pela quantidade de likes ou seguidores, mas pela qualidade da presença, da conversa e da convivência.

Foi nesse cenário — já profundamente transformado — que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman desenvolveu o conceito de sociedade líquida. Antes da sua morte, o Facebook já estava consolidado, e o Instagram ganhava cada vez mais espaço. Em entrevistas marcantes, Bauman alertava para o risco de vivermos a ilusão de possuir centenas ou milhares de “amigos”, quando, na realidade, os vínculos se tornaram frágeis, descartáveis e facilmente substituíveis. No mundo virtual, podemos bloquear ou ser bloqueados, deletar ou ser deletados, dar ou retirar voz aos “amigos” com um simples clique. Para Bauman, uma vida inteira dificilmente comporta muitos amigos verdadeiros. Quantos amigos você realmente tem? Com quantas pessoas você pode, de fato, contar?

Segundo ele, a vida permite, no máximo, a construção de poucos laços profundos. Podemos conhecer muitas pessoas, circular por inúmeros ambientes, mas a amizade verdadeira é marcada por presença, encontro humano, conversa, diálogo, troca, responsabilidade e fidelidade — exatamente o oposto da lógica das conexões digitais, que privilegiam a quantidade em detrimento da profundidade, e uma velocidade de troca sem compromisso sincero, afetivo e duradouro.

Nesse contexto, amizades e encontros humanos passam a ser tratados como commodities na sociedade líquida. As supostas amizades parecem, muitas vezes, carregadas de interesses, de objetificação, de algo a ganhar em troca.

Esta semana, ao ouvir as histórias que a Johnna me contou — histórias de cuidado, de troca, de amizade verdadeira entre pessoas que caminham juntas em nossos grupos; histórias de pessoas que encontraram trabalho não por meio de redes virtuais, mas a partir de encontros reais, culturais e humanos, de vínculos estabelecidos no nosso Café Cultural Fusion e em tantos outros espaços parceiros que oferecem tempo, conversa e interação — fui lembrado de que, apesar de tudo, ainda existem vínculos que resistem à liquidez. Acho extraordinário vivermos em um mundo onde a velocidade da informação e a tecnologia nos oferecem possibilidades inéditas de comunicação. No entanto, essas ferramentas existem para nos servir, e não para nos escravizar. Estão disponíveis para serem usadas uma ou duas vezes ao dia, não para nos fazer, a cada cinco minutos, desviar o olhar da vida real. Estão próximas para uma chamada de emergência, não para nos roubar a energia interior nem nos aprisionar na ansiedade da popularidade.

Aliás, um dos autores que mais tem me influenciado ao longo destes últimos anos na espiritualidade da presença e do convívio humano tem sido Henri Nouwen, que dizia:

“A amizade verdadeira nasce quando duas pessoas ousam dizer uma à outra: ‘Você também?’” Afinal de contas, amizades não se medem por alcance, mas por permanência.

Até a próxima.

Fábio

Collonges au Mont D'Or

107 Visualizações
Veja Também No Silêncio dos Diários: Três Graus até Bonhoeffer, Quatro até Hitler, e a História que Mora ao Lado
Fábio Muniz

Fábio Muniz

Fábio Muniz, originalmente do Brasil. Ele tem viajado ao redor do mundo nestes últimos 20 anos e acumulado inúmeras experiências multiculturais. Graduado em Administração de Empresa pela Universidade São Judas Tadeu. Possui um Máster em Marketing pela Universidade de Barcelona. Atualmente vive em Lyon, França. Ele é apaixonado pelo estudo das culturas, história e antropologia. Além de ter trabalhado com Marketing e Recursos Humanos, ele também é formado em Acompanhamento Espiritual pela North Park Theological Seminary onde recentemente também iniciou o seu Mestrado em Divindade. Fábio é autor do livro Upside Down Evangelism: How Not to Manipulate People in a Post Modern, Post Christian, Spiritually Alive Globalized World. Ele é casado com Johnna que nasceu nos Estados Unidos. Eles têm duas filhas: Sophia, nascida na Flórida, e Julia, nascida em Yokohama. Atualmente ele e Johnna formam parte da equipe Serve Globally, uma ONG com sede em Chicago, que tem projetos sociais espalhados por quase todo o mundo. Fábio e Johnna trabalham como pontes culturais, utilizam as suas experiências internacionais e através de 6 (seis) idiomas desenvolvem programas de integração cultural e social, seminários e palestras com o objetivo de servir a comunidade francesa, aos estrangeiros, imigrantes e refugiados. E-mail: [email protected] Blog: http://blogs.covchurch.org/fjmeurope/ Projetos: https://www.meetup.com/International-Hangout-and-Language-Exchange/ https://www.meetup.com/Coffee-and-English-at-Starbucks-Gratte-Ciel/ Instagram: @repensando_2017
Veja todas as minhas matérias

2 comentários

  1. Vladmiro Manuel disse:
    Bem reflectido Fábio, muito obrigado!
    1. Fabio Muniz disse:
      Obrigado meu querido amigo.
      Beijão, Vlad!
      Fábio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe esta notícia

Mais postagens