O momento que não precisava viralizar: Ora et labora na era dos algoritmos
O momento que não precisava viralizar: Ora et labora na era dos algoritmos
Nestes dois últimos dias entre os monges beneditinos, na linda colina de Montecassino, que guarda memórias desde o século VI, vivi uma jornada entre guerras e reconstruções, paz e violência. Além da história que ouvi sobre a cripta, onde, segundo algumas versões, os monges teriam se escondido das bombas durante a Segunda Guerra Mundial e sobrevivido enquanto a basílica era completamente destruída, há também a força e a resiliência de reconstruí-la segundo o conceito dov’era, com’era — onde era e como era —, preservando uma arquitetura barroca belíssima, com detalhes que nos fazem viajar pelos Evangelhos.
Há também a sabedoria de ter decidido preservar centenas e centenas de livros, manuscritos, quadros, documentos, achados de cerâmica e outros objetos que remontam ao século IV a.C. e atravessam os séculos. Apesar da destruição da basílica, esse material foi salvo a tempo, antes do bombardeio.

O espírito comunitário que permeia a história deste lugar faz ecoar dois lindos conceitos entre os monges. O primeiro é ora et labora, em que orar não significa se ausentar do trabalho, assim como trabalhar de olhos abertos não significa que não haja espaço para a prece e a devoção. Enquanto se trabalha, ora-se; enquanto se ora, trabalha-se. São dimensões conjugadas do esforço humano e da dependência divina.
O segundo conceito, presente na Regra de São Bento, é o de receber qualquer pessoa como se fosse o próprio Cristo.
Dito isso, passei estes dois dias sendo, eu, um cristão de tradição protestante, recebido, acolhido, amado e cuidado de uma maneira inimaginável. Fiz as preces com eles, compartilhei a mesma mesa durante as refeições e participei dos cânticos, enquanto eles tinham o trabalho gigantesco de me mostrar, com paciência, ternura e carinho, as páginas correspondentes a cada canto, prece e leitura bíblica — como se estivessem tratando o próprio Cristo.

Talvez o mais maravilhoso seja que, em nenhum momento, havia um celular entre nós. Ninguém fazia selfies; não havia gravações, fotos de grupo ou checagem de mensagens no WhatsApp. Tirei fotos e fiz vídeos fora desses momentos comunitários, mas nem mesmo durante as refeições havia celulares. Não me lembro da última vez que participei de algo assim.
Hoje em dia, parece não haver nada que façamos sem postar no Instagram, sem perceber que, depois de 24 horas, talvez ninguém mais se lembre do que publicamos, diante da enxurrada de posts, reels e stories com que somos bombardeados.
Mais do que isso, quando pensamos em fazer posts e vídeos, corremos o risco de perder o momento presente, o aqui e agora. Esquecemos que aquilo que imaginamos que pode se tornar viral talvez dure menos de dois segundos na tela de um possível seguidor e que, dependendo do humor dos algoritmos, nossa publicação pode viralizar ou não.

No entanto, o momento que deveria ter sido viral era justamente aquele que deveria permanecer na memória de cada um de nós, arquivado no coração, curtido no interior da alma, com milhares de coraçõezinhos na nossa mente, sem a preocupação com a validação de ninguém, nem mesmo do mundo inteiro.
Talvez essa seja a lição mais profunda que levo destes dois dias: cânticos e preces que poderiam render milhares de likes perderiam sua simplicidade se fossem transformados em conteúdo. A presença de uns para com os outros poderia se diluir na tentação de buscar reconhecimento, de nos tornarmos conhecidos pelo mundo, mas talvez desconhecidos de nós mesmos e de Deus.
Quantos de nós temos perdido a nós mesmos em busca do reconhecimento dos outros, do grupo, da sociedade, dos amigos e das plataformas? E, quando nos damos conta, a vida se tornou uma vitrine projetada dentro de uma tela que funciona a partir de combinações de algoritmos.
Ora et labora nos convida ao equilíbrio. E o que escrevo hoje não é um convite a nos ausentarmos da tecnologia. Eu mesmo a utilizo e, se você visitar meu Instagram, verá fotos destes dois dias. Mas as imagens e os vídeos que os algoritmos talvez esperassem não existem, porque escolhi que esses momentos ficassem guardados na iCloud do meu ser, com profunda gratidão por estes dois dias de silêncio e pausa.

Quem sabe a gente começa a praticar isso, pelo menos durante as refeições, deixando o telefone de lado? Ou quem sabe começamos a não fazer do celular a primeira coisa que olhamos ao abrir os olhos pela manhã? Ou, ainda, a ler um livro, ouvir uma música ou simplesmente ficar em silêncio antes de dormir, em vez de checar o Instagram pela última vez?
Talvez, em nossos dias, viver o ora et labora seja também aprender a estar inteiramente presentes diante de Deus e uns dos outros, sem precisar transformar cada momento em algo a ser mostrado ao mundo.
Fábio
Montecassino

