Saúde mental no contexto escolar
No âmbito desta pesquisa, a saúde mental é abordada como o bem-estar emocional, psicológico e social que permite a estudantes e educadores viverem suas experiências escolares de forma plena e produtiva. A pesquisa aponta para uma deterioração da saúde mental que se manifesta em diversos sentimentos e condições. Entre os principais sinais observados estão:
●Cansaço constante e sobrecarga emocional: exaustão diante das demandas escolares e profissionais.
Ansiedade: preocupação excessiva, especialmente entre estudantes do ensino médio.
●Isolamento e falta de pertencimento: ausência de vínculos e de reconhecimento no ambiente escolar.
●Desgaste emocional crônico: resposta prolongada a pressões, aproximando-se de um quadro de esgotamento profissional.
●Ambiente hostil ou violento: situações de bullying e exclusão silenciosa.

Desconexão institucional: sensação de que a escola não se preocupa com o bem-estar de seus membros.
Dores distintas, sofrimento compartilhado: estudantes e educadores
O estudo, que dedicou uma parte à percepção dos estudantes e outra aos educadores, revela um adoecimento coletivo, ainda que com especificidades para cada grupo.
Para os estudantes:
●64% dos alunos relatam sentir-se “constantemente sobrecarregados, cansados e desgastados pela escola” em níveis que afetam sua saúde mental.
●24% dos estudantes não se sentem pertencentes a nenhum grupo na escola, e a maioria não percebe apoio ou preocupação dos colegas com seus sentimentos.
●O índice de saúde psicológica despenca de 80 pontos nos anos iniciais para 64 pontos no ensino médio, indicando um adoecimento progressivo ao longo da vida escolar.
●Os anos finais do ensino fundamental (8º e 9º anos) são a fase mais crítica, com o índice de convivência escolar caindo para 46 pontos, configurando um ambiente percebido como violento e hostil. A pesquisa identificou a naturalização do bullying (intimidação sistemática) e da exclusão silenciosa.
●Mais da metade dos estudantes, 57%, não acredita que a escola ou os professores se preocupem com seu bem-estar, e apenas 22% se sentem plenamente reconhecidos e acolhidos.
●O cansaço (43% a 48%) e a ansiedade (que supera sentimentos positivos no ensino médio) são os sentimentos mais prevalentes.
Para os educadores:

●75% dos educadores indicam que o ambiente escolar prejudica sua saúde mental.
●O mesmo percentual relata sentir-se “constantemente desgastados pelo trabalho” em níveis que comprometem sua saúde mental, aproximando-se de um quadro de burnout (termo em inglês relacionado ao esgotamento mental e físico pelo trabalho).
●Um paradoxo emerge: embora 91% dos educadores associem a profissão à felicidade e 90% relatem conexões profundas com colegas de trabalho, isso coexiste com altos níveis de desgaste. Essas conexões entre pares funcionam como fator de proteção, mas “não substituem políticas institucionais de cuidado”.

●A pesquisa também evidencia uma “normalização da exaustão” na docência, onde o autocuidado se torna uma estratégia de sobrevivência, e não uma política institucionalizada de bem-estar.
Recomendações: escola que cuida e escuta
O estudo não se limita ao diagnóstico, mas propõe caminhos para a ação. A principal mensagem é que o cuidado precisa deixar de ser responsabilidade individual para se tornar política institucional.
As recomendações são divididas em cinco frentes:

- Repertório
emocional como currículo oculto:
- Inserir atividades regulares de educação socioemocional no currículo, articuladas com diversas áreas do conhecimento.
- Utilizar metodologias como rodas de conversa e diários reflexivos.
- Formar docentes para identificar e mediar conflitos com abordagem empática.

- Criar estruturas permanentes de participação estudantil (conselhos de alunos, assembleias).
- Promover ações institucionais que reforcem vínculos e reconhecimento.
- Garantir representatividade estudantil em decisões pedagógicas e disciplinares.
- Implantar uma agenda permanente de escutas com professores, alunos e famílias (questionários, grupos focais).
- Desenvolver políticas de devolutiva transparente e publicização dos resultados, com planos de ação compartilhados.
- Formar gestores para conduzir conversas difíceis com ética e sensibilidade.
- Criar políticas institucionais de cuidado docente: pausas programadas, redução de carga horária e apoio psicológico.
- Criar espaços de escuta e acolhimento entre pares: círculos de cuidado docente e mentorias.
- Integrar indicadores de bem-estar docente nos processos de avaliação institucional.
- Formação para educadores em práticas não-coercitivas e novas estratégias de engajamento (aprendizagem baseada em projetos, sala de aula invertida).
- Investir na construção de significado e no diálogo aberto sobre o processo educacional entre estudantes e professores.
- Revisar sistemas de avaliação, tornando-os mais justos e coerentes.
Não podemos mais normalizar o sofrimento como parte do aprendizado. Precisamos reencantar a escola como espaço de convivência, escuta e pertencimento.

