Querido diário,

Como previsto no meu calendário pessoal, quero escrever dessa maneira pelo menos uma vez por mês, compartilhando de forma mais ampla e íntima alguns assuntos, reflexões, curiosidades e vivências que muitas pessoas ainda se incomodam em falar — dando uma brecha para o diálogo ou a autorreflexão sobre a vida como ela realmente é.

Depois de 10 anos do lançamento, finalmente consegui terminar de assistir 50 Tons de Cinza. Lembro que, na época, não quis ver o filme porque me parecia algo ruim que todo mundo estava consumindo só por estar na moda. O tema do sexo falado abertamente por quem assistia não me incomodava — e eu também não tinha a percepção do quanto aquilo foi importante, ainda que hoje pareça já meio perdido no tempo.

Depois que fui me conhecendo e entrei no meio fetichista, até hoje, quando me perguntam o que é uma “dominatrix”, costumo usar o filme como referência. Digo que sou igual ao “homem” — e por isso senti necessidade de finalmente assisti-lo por completo.

Eu até entendo por que o fetichismo e o BDSM ainda são um tabu enorme e cercados de preconceitos. O que não entendo é por que aquele filme foi tão aceito, sendo que ele retrata, ainda que superficialmente, o que chamam de “submundo”.

Dentro do BDSM também existem abusos e as famosas red flags, assim como em qualquer outro tipo de relação. Mas a diferença que vejo entre esses dois mundos é a comunicação. Qualquer pessoa que participa de uma cena BDSM sabe — ou certamente já ouviu falar — sobre a negociação, ou até mesmo sobre o famoso contrato, como no filme. As cenas devem ser sempre SSC (são, seguras e consensuais). Falamos sobre o que queremos, o que gostaríamos de experimentar, conversamos sobre nossos limites e decidimos, juntos, uma palavra de segurança.

Veja Também  Kacau: Geração Alpha, os pequenos consumidores da era digital

Já em relações casuais, ou até mesmo em relacionamentos longos, parece ser muito mais difícil ouvir pessoas falando abertamente sobre suas vontades e fantasias. Muitas vezes, acabam aceitando uma vida de prazer mais ou menos, achando que estão agradando o outro, ou com medo e vergonha de serem julgadas por querer experimentar algo diferente.

Sendo uma dominatrix, o que mais vejo são pessoas, dentro de um espaço seguro, se libertando de um mundo cheio de regras sobre como devem ser e agir. Mas, ao mesmo tempo, vejo muita gente com medo de ser descoberta no “mundo real”. Medo de perder amigos, família, emprego — tudo isso porque ninguém fala sobre esse assunto, e quando falam, geralmente é para dizer o que se deve ou não gostar. Isso faz com que muitas pessoas não se sintam pertencentes, e, às vezes, até acreditem que há algo de errado com elas.

A única coisa que pode ser errada dentro desse meio é qualquer prática que prejudique a si ou ao outro. De resto, tudo é normal. E, mais do que isso: tudo é bem-vindo.

Loading

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Compartilhe esta notícia

Mais postagens