OS CLUBES UNIDOS NA FILA DO PÃO?

“Ouviram do Ipiranga…” Os gritos animados das crianças jogando bola, na terra batida e vermelha, no meio do poeirão, onde as traves eram demarcadas por chinelos e a bola costurada de restos de meias.
Os moleques pequenos riam de sua sorte,  uns sem camisa eram de um time e outros eram os adversários  que no meio das adversidades, se alegravam pelos dribles tão bem ensaiados, das paulistinhas, do drible da vaca, do folha seca, do sem pulo, da falta sem querer, afinal é jogo de contato e sonhando um dia ter o rosto estampado numa figurinha, no álbum bem guardado. As fotos na capa da revista!
Todas as tardes, os meninos estavam lá, em pura  felicidade, treinar e jogar toda a vida,  apenas crescer sonhando um dia jogar no Pacaembu ou no Morumbi.  Ouvir a torcida aplaudindo, quando entrar em campo  gritar seu nome bem alto e virar um herói com a camisa amarelinha?
Bem, tudo isso parece ser bem antigo, podem até pensar, mas a ideia, o sonho e a vontade ainda estão no coração e na alma de muitos torcedores que alimentam sua paixão pelo futebol raiz.
Esse tal futebol que se jogava na terra batida, no fundo de fábricas,  nos campos de várzea espalhados em cada canto desse país. Pura alegria! Enorme diversão!
Mas como dizem os mais novos, o futebol mudou muito.
Mudou muito mesmo, parece mais um enorme espetáculo, daqueles que se percebe nos shows de rock, com artistas estrangeiros que pedem desde água importada, andares inteiros de prédios reservados e limosines para um role na noite da Cidade.
Antes os jogadores eram os astros, sua habilidade, drible, domínio da bola, os tantos gols que faziam, sem a tal “cavadinha”, eram heróis que vestiam a camisa da seleção brasileira com orgulho e defendiam até à vitória massacrante.
Sim, o futebol mudou, ou mudamos nós?
Hoje um exército de fisioterapeutas, fisiologistas, psicólogos, preparadores, maqueiros, consultores de computador e auxiliares técnicos, de empresários, de representantes, de ajudantes dos ajudadores, analistas de desempenho, de presidentes de clubes e dirigentes e seus respectivos auxiliares discutem por nada e por tudo e até perdem, um jogo muito mais fácil,  que os mesmos antigos de várzea.
E sabe por que? Se a bola, essa mesma que já foi redonda, mas hoje anatomicamente construída com alta tecnologia, não entrar no gol, não é gol!
Além é claro de vencer as linhas criadas pela tais que desenhadas pelo “fremie” da câmera,  pelos ângulos desenhados no campo, capturados pelos drones que pegam tudo, que possa escapar a compreensão humana.
Sem esquecer, que uma pessoa de carne e ossos, tem um apito antigo, na boca, um corpo despreparado para a tal correria desenfreada, a pressão que ocorre dentro do campo e fora dele, mas cabe a ele, conduzir de forma imparcial os que nunca, nunca mesmo vão aceitar, com cabeça fria, a decisão de segundos,  nesse mundo de pura paixão.
A mesma paixão que movia os meninos que jogavam no meio da poeira, da terra batida, do campinho de bairro, onde as traves eram chinelos e onde o prêmio maior era um sorriso, que durou a vida toda.
Mudanças no Campeonato, tão exigidas, argumento de uma nota só em qualquer conversa de bar. Muitos jogos, diziam, muitos jogadores quebrados, essa mania de poupar jogadores, que estragava o grande momento da partida, torcida encontrando seus ídolos,  pedir camisetas, fotos, autógrafos e receber um carinho especial, que tal o Poropopó sincronizado?
E não paravam por ai, argumentavam muito mais, os  ingressos caros, acesso difícil, os times falidos e “mal pagos” ou resultados de péssimas administrações, de “olhos grandes” nessa tal mania de gastar mais do que arrecada, contar com os ovos, sem as galinhas…
Enfim, temos uma nova configuração de Campeonato e Copas mais  jogos, mais disputas com datas inflexíveis, com promessas de êxito, mais dinheiro em caixa, arrecadar muito mais com transmissões e reprises.
Parece a princípio muito bom,  muito bom mesmo, para ser verdade, nesse mundo tão conturbado, onde “todo mundo grita e ninguém tem razão”, mas não quero ser voz contrária, de jeito nenhum, de maneira alguma!
Desejo enorme sucesso, absoluto e total sucesso, incomparável, até mesmo para as  Super Ligas Internacionais e imagino a nova configuração sendo invejada, copiada, gerando investimentos de ponta e se mantenha por longo tempo, com previsão inicial de 4 anos.
Que a grande fatia do bolo não fique na mão dos grandes, como o Flamengo e Palmeiras, mas que seja harmonicamente e de forma “salomônica” benéfico aos demais clubes que sobrevivem à décadas com o pires na mão.
Ou de cartola furada, resultado de um futebol roto, cansado, viciado e gasto, que necessita dos times  pequenos, necessita das rendas disputadas entre os clubes do interior, precisa das instalações simples, do vestiário que nem sempre terá água, do campo que nem sempre será sintético,  nem sempre será gramado, e por vezes pode até ser pintado de verde, fingindo ser grama.
O mesmo futebol que ostenta poder, mas depende da torcida, que uma vez, comparecendo aos Estádios,  ou Arenas faraônicas, pagando ingressos de valor absurdo, quase metade do salário e sem poder tomar a  cervejinha que “custa o olho da cara”, abrindo mão de seu bem estar, deixando de arcar com despesas em casa, que vive uma vida de assalariado, sai de casa bem cedinho, usa trem, metrô e ônibus,  aguenta patrão que não torce para time nenhum, ou pior, torce para o seu rival, e manda e desmanda, no seu humor, após uma derrota, seja qual for o placar.
Só entende quem entende….que um dia você foi daqueles que sonhava ser jogador, ser um herói vestido de verde e amarelo, chamando o pai e mãe que deram um duro danado na vida, para te ver, marcar o gol, os muitos gols, ouvir seu nome, gritado aos berros pela torcida, na boca da galera….e quem sabe até dar um monte de entrevistas….e lá no final do jogo, um moleque bem franzino,  assim como você foi, pedir autógrafo e você com o coração quase saindo do peito, quase gritando de emoção, escrever seu nome!
Paixão não se explica! Futebol é Arte!
Futebol é Paixão!
Muito obrigada queridos leitores!
Até semana que vem!

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