SER NEGRO. …É DISSO QUE SE TRATA!

Há algo de sagrado quando um corpo negro canta.
Como se a própria Terra respirasse junto.
A voz vem das entranhas da história, mistura de reza e ferida, tambor e saudade.
Antes da palavra escrita, o povo negro já narrava o mundo com o ritmo — o batuque era sua língua, o canto sua memória. A sonhada liberdade.
Foi na travessia mais escura da humanidade — nos porões dos navios negreiros — que nasceu o primeiro compasso da resistência. Ali, sem instrumentos e sem chão, o corpo virou percussão.
E o tambor, proibido depois nas senzalas, continuou batendo dentro do peito. Há quem jure ser lamento vivo!
Dessa dor nasceu um dos maiores legados da humanidade: a música negra.
No Brasil, o som dos terreiros, dos quilombos e das favelas construiu a alma do país.
E nesse bem bolado, tudo misturado, nas entranhas o esporte que ferve nas veias, sem saber por que, que grita por espaço e por vida viva!
E ao som da capoeira, um jongo jogado que fortalece a alma. Tudo para não esmorecer.
Do batuque africano nasceu o samba, e do samba nasceu um jeito de existir. Do vigor nasceu o esporte, que não tinha bola era coco, não tinha trave era árvore com raiz, tudo meio real meio sonho, um mundo que surgia devagar, embalado no atabaque, no som da cor.
Clementina de Jesus, a “Rainha Quelé”, foi quem abriu as portas para que essa ancestralidade ganhasse microfone.
Cantava ladainhas de um tempo anterior ao tempo, e o Brasil, enfim, ouviu sua própria origem.
Elza Soares veio depois, esculpida  de aço e vendaval.
Negra, favelada, casada aos 12, viúva aos 21, mulher que perdeu filhos e nunca perdeu a voz. Tanto a suportar e no peito tudo bem guardado.
Quando perguntaram de que planeta ela vinha, respondeu:
“Do mesmo que vocês — só que eu vim mais sofrida.”
Surgiu Thelonious Monk, gênio inquieto, pianista que tocava como se conversasse com os fantasmas do blues.
Suas notas pareciam tropeçar e se levantar de novo — como o próprio povo negro.
Monk não apenas tocava piano; ele inventava universos sonoros.
Cada pausa, cada silêncio, era uma forma de dizer: “nós existimos”.
Quando lhe pediram para explicar sua música, respondeu:
“O jazz é liberdade. É você ser você mesmo.”
Monk usava chapéus excêntricos, roupas coloridas e uma mente que dançava — prova viva de que o gênio negro não se encaixa: ele transborda.
E como não lembrar de Nina Simone, a sacerdotisa da revolução em forma de canção?
Nina, que sonhava ser pianista clássica, mas foi impedida por ser negra.
Nina, que trocou o silêncio pela fúria e cantou:
“To be young, gifted and Black — that’s where it’s at.”
(“Ser jovem, talentoso e negro — é disso que se trata.”)
Seu piano era arma, sua voz, manifesto.
O futebol tomou corpo, o boxe chegou com força máxima, destruindo tudo, veio para ficar, no basquete, no vôlei, no céu e no mar, nas escritas, nas palavras ditas, nos sonhos por esse mundo todo de tamanho continente. Brasil que traz em suas veias um “cadinho” desse povo tão valente, que tem a cor mais quente, o gingado malemolente, a prosa envolvente e o doce terno e infinito olhar.
Desse mundo tão especial dizer tudo, sempre pode ser só um pouco, então que possamos reparar nos cerca, existem pedras preciosas que merecem um dia mais que Especial…
Milton Nascimento e sua voz que parece vir das montanhas;  Ataulfo Alves, o “Lorde”, ele enfeitiçava com sua afinação, sua voz clara e dicção perfeita e a elegância real, falando em claridade, Clara Nunes que trouxe o candomblé para o palcos do Brasil. Muitos que escreveram a história que consta nos livros do mundo, Leci Brandão, Cartola, Jorge Ben Jor, Seu Jorge, Agostinho dos Santos, Martinho da Vila, Rui Barbosa, Castro Alves, Pelé, Neymar, Vinicius Junior, Romario, Denner, Gui Negao, Memphis, Alex Sandro, Militão, Bruno Henrique, Estêvão, Endrick…
Um momento de paz, nessa atribulada arrancada para as decisões que estão fervendo dentro do campo, dentro dos tribunais e fora também na troca de farpas de Palmeiras e Flamengo.
Pausa merecida para valorizar a cor da pele, a raça e o talento.
Celebrando a Consciência Negra!

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