Talvez o problema não seja entrar em um novo ano.
Talvez seja a forma como tentamos, todos os anos, começar de novo.
Perder peso, começar a universidade, fazer exercícios, ir à academia, estudar inglês…
A lista se repete, ano após ano.
E então a pergunta retorna: qual é o segredo para entrar em 2026?
Sinceramente, não sei se existe um segredo.
Talvez não exista fórmula alguma.
Quando converso com amigos e escuto cada história, tenho a impressão de que tudo gira em torno do que chamamos em inglês de common sense — aquilo que, no fundo, todos já sabemos.
As respostas quase sempre apontam para o mesmo lugar: saúde, amor, paz, reconciliação, união.
Mas quantos de nós escolhemos, de forma intencional, o caminho do perdão?
Quantos respiram fundo antes de responder com o pavio curto?
Quantos se aproximam de quem pensa diferente, buscando aquilo que une, em vez do que separa?
Nesta semana, tenho escutado o audiolivro do monge franciscano Richard Rohr, Just This — “Apenas isto”.
Um livro simples, mas carregado de princípios extraordinários.
Começar o ano com essa consciência me parece libertador: “Apenas isto” me basta.
Sendo franciscano, Rohr nos lembra que Deus não está no passado que idealizamos,
nem no futuro que tememos, mas no real que se apresenta hoje, agora.
O convite não é mudar tudo ao nosso redor, mas aprender a ver.
Levanto todos os dias, pego o mesmo ônibus, sigo o mesmo caminho para o trabalho ou para a escola. As ruas são as mesmas.
Mas, de repente, percebo o cheiro do pão saindo do forno da padaria ao lado de casa.
Observo crianças correndo no parque.
Escuto o vento.
Vejo o sorriso de um jovem ao olhar para a mãe.
O gesto simples de um motorista que para o carro para deixar uma senhora atravessar a rua.
Rohr também nos ajuda a entender que a cura começa em nós mesmos.
Quando paramos de tentar corrigir o mundo inteiro — e desistimos da tentação de sermos um “messias planetário”. Toda vez que faço isso, fujo do trabalho interior que preciso enfrentar: minha dificuldade de amar, meu limite para perdoar, minha amargura,
minha impaciência.
Vivemos presos ao dualismo: certo ou errado, puro ou impuro, nós e eles.
Mas a vida é feita de tensões.
E crescer é aprender a habitá-las sem julgamento, com a consciência de que estamos em processo, aprendendo enquanto caminhamos.
A espiritualidade, então, deixa de ser teoria e se torna prática.
Contemplação não como ideia, mas como modo de viver.
“Apenas isto” é um convite a viver a fé no ordinário, no cotidiano, no chão da vida.
Termino desejando, mais uma vez, um Feliz Ano Novo.
E parafraseando Richard Rohr: Passamos a vida tentando consertar os outros,
quando o convite espiritual sempre foi habitar o próprio coração com honestidade.
O ano não começa quando mudamos tudo, mas quando aprendemos a estar inteiros
no pouco que nos é dado hoje.
“Apenas isto” já é suficiente.
Seguimos nos vendo no Portal do Andreoli, às segundas-feiras.
Até a próxima.
Fábio
Cologne-au-Mont-d’Or
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