O DIA DAS MÃES E A SAÚDE MENTAL NA MATERNIDADE ATÍPICA

O Dia das Mães costuma ser retratado como uma data de flores, homenagens, abraços e cafés da manhã felizes.

Mas existe uma parcela de mães que atravessa essa data tentando apenas sobreviver ao próprio cansaço.

Falo das mães atípicas.

Mães que amam profundamente seus filhos, mas que também vivem em estado permanente de alerta.

Mães que conhecem de perto as terapias, os laudos, as consultas, as crises, as reuniões escolares difíceis, as negativas de tratamento, a sobrecarga financeira e o medo do futuro.

Mães de pessoas com autismo e de pessoas com deficiência intelectual, paralisia cerebral, síndromes raras, deficiências múltiplas, doenças crônicas e tantas outras condições que exigem cuidado constante.

Muitas vezes a mãe atípica não descansa. Não dorme profundamente. Não consegue adoecer. Não consegue parar.

Pesquisas recentes mostram números alarmantes sobre a saúde mental dessas mães.

31% apresentam sintomas importantes de ansiedade.

22% apresentam sintomas de depressão.

E um dado especialmente doloroso: 65,7% tiveram indicação de transtornos mentais comuns relacionados ao esgotamento emocional, sobrecarga e sofrimento psíquico.

Outro estudo internacional comparou os níveis de estresse de mães de pessoas com autismo aos de soldados em situação de combate.

Porque a sobrecarga da maternidade atípica não termina nunca.

Ela começa cedo. Muitas vezes antes mesmo do diagnóstico.

Começa naquela sensação de que “tem algo diferente acontecendo”.

Depois vêm as consultas, os exames, as dúvidas, a culpa, o medo, a peregrinação atrás de respostas, as terapias, as adaptações da rotina e as batalhas por direitos básicos.

São mulheres que precisam ser rede de apoio, provedora, cuidadora, motorista, defensora, barraqueira, pesquisadora, administradora da casa e porto seguro dos filhos, tudo ao mesmo tempo.

Veja Também  Lilian Schiavo: Quem são as minorias?

Quando essa mãe é solo, tudo isso se torna ainda mais pesado, porque não há com quem dividir as madrugadas, as decisões difíceis, os boletos, as terapias, as idas ao médico, as batalhas na escola e o medo do futuro.

E, como se não bastasse, a maioria de nós ainda enfrenta julgamentos constantes.

“Você é superprotetora.”

“Você está exagerando.”

Há mães que passam anos sem dormir uma noite inteira.

Sem conseguir fazer uma refeição em paz.

Sem sair sozinhas.

Sem lembrar da última vez em que cuidaram de si mesmas.

E existe algo que quase ninguém fala: o impacto físico dessa sobrecarga.

A ansiedade constante provoca insônia, gastrite, crises de enxaqueca, dores musculares, hipertensão, alterações hormonais, irritabilidade constante e um cansaço que não passa nem depois de dormir.

O corpo começa a pedir socorro.

Muitas mães vivem em estado de hipervigilância permanente.

Dormem “com um ouvido acordado”.

Vivem antecipando crises.

Pensando no futuro.

Se perguntando quem cuidará dos filhos quando elas não estiverem mais aqui.

E o mais doloroso: muitas sentem culpa até por estarem cansadas.

Precisamos parar de romantizar a exaustão materna.

Não é bonito uma mulher viver no limite.

Não é saudável uma mãe passar anos sem descansar.

Não é normal sobreviver à base de ansiedade, privação emocional e culpa.

Neste Dia das Mães, eu gostaria de falar especialmente com você, mãe atípica, que talvez esteja lendo esse texto completamente cansada.

Você não é fraca por estar exausta.

Você não ama menos seu filho porque às vezes sente medo, tristeza ou vontade de fugir por algumas horas.

Você também importa.

Sua saúde importa.

Veja Também  Lilian Schiavo: Lugar de mulher é onde ela quiser

Seus sonhos continuam importando.

E se hoje ninguém disse isso, eu quero dizer: eu vejo você.

Vejo a mulher que luta diariamente por inclusão, tratamento, dignidade e respeito.

Vejo as noites sem dormir.

Vejo as batalhas silenciosas que quase ninguém percebe.

E desejo, do fundo do coração, que você encontre acolhimento pelo caminho. Que tenha pessoas que segurem sua mão.

Que consiga respirar sem culpa.

E que nunca esqueça que também merece cuidado.

Feliz Dia das Mães para todas as mães atípicas que seguem resistindo mesmo cansadas.

Vocês são extraordinárias.

E merecem ser cuidadas também.

Você está chegando agora nesse tema, saiba: aqui é um espaço para você se sentir acolhida. Se quiser, me escreva, conte suas dúvidas ou relate alguma situação que esteja vivendo com uma pessoa com TEA adulta ou idosa – ou com você mesma.

Um beijo e até a próxima quarta-feira.

Juçara Baleki

Siga o meu Instagram @querotratamento

Fontes:

Revista Crescer — post “Dia Mundial do Autismo, a gente fala sobre a mãe que também precisa de atenção”: https://www.instagram.com/revistacrescer/

Estudo: Mental health in mothers of children with autism spectrum disorder: a cross-sectional study (2024): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39155146/

Loading

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Compartilhe esta notícia

Mais postagens