A Ilusão do Controle: O Direito de Não Ter Tudo Resolvido

Créditos: Consumidor Moderno

Uma das coisas que mais percebo ao conversar com pessoas — independentemente da cultura ou do lugar onde vivem — é o medo de tentar algo e fracassar.

Você já se sentiu assim?

Vejo pessoas paralisadas diante de decisões simples, como escolher um prato no cardápio porque não sabem se irão gostar da comida. Ao mesmo tempo, vejo gente incapaz de avançar em decisões muito maiores: mudar de trabalho, terminar relacionamentos desgastados, começar um novo projeto ou enfrentar escolhas familiares difíceis.

Existe em nós uma necessidade profunda de controle. Queremos respostas certas, garantias absolutas e a sensação de que sabemos exatamente onde cada decisão irá nos levar. O problema é que a vida raramente funciona assim.

Por que o medo humano de errar nos paralisa tanto? Por que temos essa obsessão por controle? Queremos provar para quem que sabemos, podemos e conquistamos? Quem é a nossa platéia? Instagram? Colegas de trabalho? Os grupos sociais pelos quais transitamos?

É interessante perceber que, desde o início da narrativa bíblica, o ser humano demonstra inquietação diante do desconhecido. No relato de Gênesis, a árvore do conhecimento do bem e do mal representa justamente a tentação de ultrapassar limites para obter domínio, autonomia e controle. Segundo a tradição cristã, Eva toca exatamente na única árvore que não deveria ser tocada. Há algo profundamente humano nisso: a dificuldade de aceitar que não podemos controlar tudo.

Ontem, conversando com as meninas, falávamos sobre o fato de que em breve deixaremos a França. Falamos das dificuldades de aprender um novo idioma, de colocar nossas coisas em caixas, de reorganizar a vida mais uma vez. Aliás, muitos dos nossos projetos na França foram um enorme sucesso. Outros, porém, começaram de forma promissora, mas tiveram resultados diferentes daqueles que experimentamos em outros países e, por isso, não funcionaram da maneira como imaginávamos. Ainda assim, tivemos que tentar. Tivemos que fazer. Tivemos que começar.

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Talvez o medo do fracasso não esteja ligado apenas ao erro em si, mas à nossa incapacidade de lidar com a vulnerabilidade. É difícil ser vulnerável, porque talvez o maior medo não seja fracassar, mas ser julgado pelos outros.

Fracassar nos lembra que somos limitados, que não sabemos tudo e que não temos o controle completo da vida. Um dos maiores desafios dos nossos dias, enquanto acumulamos dezenas, centenas ou até milhares de “amigos” e “seguidores” nas redes sociais, é encontrar espaços onde possamos simplesmente ser nós mesmos — sem a necessidade de oferecer garantias absolutas o tempo todo.

A vida vai nos ensinando que maturidade não é controlar tudo, mas aprender a confiar mesmo em meio às incertezas. Esse é um caminho construído um dia de cada vez: com gente que nos ama genuinamente, com amigos diante dos quais podemos ser quem realmente somos e com a confiança de que, do alto, a força divina continuará nos sustentando.

Talvez um dos maiores desafios espirituais da vida seja justamente este: abrir mão da ilusão do controle para finalmente viver.

Viver um dia de cada vez, na esperança de que, como dizia o jovem Davi segundo a tradição judaico-cristã, “o Senhor é o meu pastor”, e continuará cuidando da jornada — passo a passo, dia após dia.

Fábio

Collonges au Mont D’Or

 

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