Crítica: Marrowbone (El Secreto de Marrowbone)
Avaliando o ano cinematográfico de 2017, posso afirmar que foi um ótimo ano para o meu gênero favorito, o horror. Tivemos um bom número de lançamentos, e o melhor: desde os filmes de terror mais aguardados do ano, até às surpresas que foram surgindo, muitas destas obras corresponderam às expectativas dos fãs. Filmes como It: A Coisa (que se consolidou como o maior sucesso de bilheteria do gênero em toda a história), The Ritual, Ao Cair da Noite (It Comes At Night), Jogo Perigoso (Gerald's Game), The Void, A Autópsia (The Autopsy of Jane Doe) e 1922, de alguma maneira agregaram à vertente do terror no ano, para a alegria dos entusiastas do gênero, assim como eu. Em tempo: Todas as críticas dos filmes citados estão disponíveis aqui mesmo no Portal do Andreoli.
Outra produção do horror a chegar às telonas em 2017 é este suspense sobrenatural Marrowbone (El Secreto de Marrowbone, Espanha, 2017), produção dirigida pelo estreante Sergio G. Sánchez (roteirista de O Impossível, 2012), outro apadrinhado do cineasta mexicano Guillermo Del Toro, que sempre procura apoiar os novos nomes do cinema fantástico de origem espanhola, mexicana e também argentina. Foi Del Todo por exemplo, quem colocou o nome do argentino Andrés Muschietti no mapa. Para quem não sabe, é Muschietti o diretor do citado It: A Coisa. Bebendo forte na fonte do ótimo thriller sobrenatural O Orfanato (que inclusive foi escrito pelo próprio Sánchez e é outra produção de Del Toro), Sánchez e seu Marrowbone replicam com sucesso alguns clichês do gênero, ao mesmo tempo em que o filme se complica em outros aspectos. No geral, Marrowbone agrada ao público, mas também o decepciona um pouco.

Ambientado no ano de 1969, o filme conta a história de uma família de imigrantes que chega à Inglaterra e se abriga em uma mansão abandonada, deixando para trás seus nomes e suas vidas. Pouco tempo depois, a matriarca da família morre, não sem antes fazer o filho mais velho, Jack (George McKay, da série 11.22.63), prometer manter a família unida. Coletivamente, as crianças decidem por ficar enclausuradas dentro da casa, até que George possa herdá-la quando completar 21 anos, evitando assim perguntas desnecessárias do pessoal da cidade sobre o passado da família. A única amiga da família é a vizinha Allie (Anya Taylor-Joy, de A Bruxa (The Witch) e Fragmentado (Split), cuja crítica você também confere aqui no Portal do Andreoli), por quem Jack se apaixona. Mas tudo muda radicalmente na vida da família, quando um dia uma arma é disparada na direção de uma das janelas da casa, pouco antes do título do filme aparecer na tela e a história avançar seis meses.
É assim que Marrowbone dá o pontapé inicial em sua narrativa, de maneira bastante atraente para um filme de época sobre fantasmas. Ou ao menos, uma história de fantasmas é o que o filme parece ser. Quando o público se reencontra com a família Marrowbone, todos os espelhos foram cobertos ou jogados fora (fato que remete um pouco à outro suspense de época produzido na Espanha, o excelente Os Outros, dirigido por Alejandro Amenábar em 2001). Há uma misteriosa mancha no teto e bastante tensão entre os irmãos. O caçula Sam (Matthew Stagg), tem medo de um suposto fantasma na casa, e algumas das melhores sequências do filme envolvem o garoto e os espelhos cobertos.
Em uma das cenas, um par de dados perdidos durante uma brincadeira das crianças leva ao terror; em outra, uma escada é o motivo dos calafrios, assim como uma sequência envolvendo um toca-discos. Todas estas cenas, em que o diretor Sánchez eleva os elementos sobrenaturais da velha mansão, são o que Marrowbone tem de melhor. A decoração do set é maravilhosa e evocativa, e remete à uma lenta descida em direção à podridão, que metaforicamente complementa o segredo por trás da fuga da família para a Inglaterra e o fatídico dia do disparo que mudou a tudo e a todos.
Infelizmente, Marrowbone não consegue parar de introduzir novos ângulos à sua história. O que começa como um filme de casa assombrada se expande para incluir um triângulo amoroso entre Jack, Allie e um ambicioso advogado local (Kyle Soller, de Anna Karenina, 2012). Então, um mistério em torno de um assassinato também é introduzido na narrativa, junto de uma subtrama envolvendo o promissor novo emprego do advogado em Nova York, e também uma questão que se alonga dentro da trama, que discute o motivo de Jane (a esquista Mia Goth, do recente A Cura), Billy (Charlie Heaton, da série Stranger Things) e Sam serem forçados a ficar dentro de casa o tempo todo.
Todas as pontas soltas do roteiro se amarram no final, mas o grande plot twist do filme infelizmente não é tão surpreendente assim, e qualquer fã moderado do gênero conseguirá prever o que acontece na conclusão muito antes do filme terminar. Esta "aposta" de Sánchez no poder de sua reviravolta final acaba resultando em uma conclusão um tanto insatisfatória para o filme, infelizmente.
No geral, Marrowbone vale a sessão por sua atmosfera, design de produção e algumas sequências realmente acima da média, incluindo uma cena envolvendo um sótão escuro e um número limitado de palitos de fósforos que arrepia até a medula do espectador. Enquanto que o roteiro de Sánchez poderia ter algumas subtramas a menos, sua estreia na direção continua sendo completamente assistível. Apenas certifique-se de que você está embarcando na viagem procurando por mais do que apenas uma história de fantasmas.
Marrowbone à princípio está agendado para estrear nos cinemas brasileiros no dia 09 de Novembro, mas esta data pode sofrer alterações.
Eduardo Kacic
11 comentários
Mariana Soto disse: Vou escrever este título na minha lista de filmes pendentes. Eu sou um seguidor de Charlie Heaton e eu não sabia que aqui ele estava agindo. Desfrutei de verlo em Refém Do Medo, eu gosto como interpreta o seu personagem, e sobre tudo é diferente a todos os filmes de suspense. Ele sempre surpreende com os seus papeis, pois se mete de cabeça nas suas atuações e contagia profundamente a todos com as suas emoções. Além, acho que a sua participação neste filme realmente ajudou ao desenvolvimento da história.Fabi disse: Nao assista, não vale o hype.
Hellen disse: Eu amei o filme, apesar de não ter muita novidade, eu fiquei presa na história, os personagens são carismáticos, tudo foi explicado, elementos que eu gosto de um filme. O filme foi bem produzido.Ana disse: Apesar de ter dado uns insights durante o filme e captar o que tava acontecendo segundos antes de acontecer, eu achei a trama muito boa! Comecei o filme com medo e terminei chorando. Em um ponto, segundos antes do plot twist acontecer, a gente entende, mas seria mentira dizer que já sabia muuuuito antes, é bastante imprevisível! Eu realmente não imaginava, estava esperando mesmo mais um filme de espírito. Visto que chamar ele de previsível perante os filmes de terror de hoje em dia, não é justo... havia muito tempo que eu não via um terror tão bom, mesmo que ele siga a linha de A Casa dos Sonhos, O Orfanato, etc... continua sendo bom.Vitor Silva disse: Bom dia! Boa crítica, mas você tem certeza que eles estão na Inglaterra? As pessoas não se vestem bem como ingleses daquela época, e você notou uma coisa? Os carros tem direção no lado esquerdo e dirigem no lado da via não inglesa, mas sim do resto do mundo... será que eles não chegam DA Inglaterra??? Em 57:32 o advogado mostra Allie duas passagens DE TREM para Nova Yorque... eles estão nos EUA, não na Inglaterrra...Eduardo Kacic disse: Olá Vitor! Precisaria dar uma revisada no filme... Já faz um tempo desde que escrevi a crítica e agora não me lembro se talvez eu tenha me confundido neste aspecto...
Mas agradeço pela observação e pela visita.
Volte sempre ao Portal do Andreoli!Elisangela disse: Oi
Então, eles vieram da Inglaterra para morar nos EUA. A casa onde eles vão morar no início do filme fica nos EUA. A casa pertence a mãe deles. Eles vieram da Inglaterra para se esconder do pai que tinha fugido do presídio. O pai era um maníaco que tinha matado várias pessoas. E quem entregou ele as autoridades foi a própria família. E o tal dinheiro que o pai havia conseguido de forma ilegal, é pego e escondido pela mãe. O pai vai atrás deles nos EUA para pegar o dinheiro e se vingar.
Manu disse: Olá,
Eu adorei o filme. Não sei se to viajando hahaha mas fiquei numa dúvida.. Jack deixou seus irmãos presos com o pai ou quando ele chegou eles já tinham morrido? Fiquei com essa dúvida pois no momento que ele vai em direção ao espelho para quebra-lo.. nós ouvimos gritos, gritos chamando 'Jack', gritos que parecem de seus irmãos.. E logo que ele quebra o espelho, os gritos param.. e ai acontece aquela parte de 'atravessar a linha e tudo será esquecido'.. Alguém sabe dizer?Juliano Cosmo disse: sim, jack não teve coragem de enfrentar o pai e deixou eles presos com ele para morrer. Por isso ele escuta os gritos, que não eram do pai porque ele estava com a garganta cortada. Eram os irmãos gritando enquanto morriam presos com o pai. Não ficamos sabendo se eles foram mortos pelo pai (o que é mais provável) ou se morreram de fome.o jack portanto não é um herói, ele é coresponsável pelas mortes.
Juliano Cosmo disse: Não concordo com a crítica. Pelo jeito quem escreveu a resenha não "sacou" o filme. ficou tudo muito bem desenvolvido, pois o que vc indica como subtramas desnecessárias na verdade são essenciais para o desenrolar do desfecho. você pensa que o plot twist foi deduzido facilmente, mas quando o verdadeiro plot twist surge ele é perturbador. Esse incômodo causado pelo plot twist verdadeiro causa um grande desconforto, e por isso entendo que muitas pessoas não vão gostar. Eu mesmo me senti frustrado pelo desfecho, não por ser sem qualidade, pois é sim surpreendente, mas é que ele na verdade é desconfortável demais e traz essa sensação perturbadora. Essa é, no entanto, a maior qualidade do filme, e não seu defeito. Muito bom, mas não para todos os estômagos.CRISLENE PEREIRA BARRETO disse: Odiei o filme , super confuso . Não entendo referente aos irmãos, eles estavam vivos o tempo todo ou não ?

