O Menino e o Vento do Gramado

Vem cá, chega mais perto.
Quero te contar uma história que não está nos livros, nem nos jornais, nem nas enciclopédias grandes que ficam em prateleiras altas.
Esta história mora no vento.
Isso mesmo: no vento
Mas calma, não é qualquer vento.
É aquele vento que passa pelo estádio antes do jogo começar, quando as bandeiras ainda estão sendo desenroladas, quando as pessoas estão encontrando seus lugares, quando o gramado parece respirar sozinho, como se fosse um ser vivo.
Esse vento carrega memórias.
E ele já sussurrou muita coisa para quem tem coração de bola.
Hoje ele quer te contar algo….
Mas para isso, você precisa saber de onde ele vem.
Dos Três Grandes Guardiões…
Há muitos anos, quando ainda não existiam telões enormes, celular com câmera e chuteira colorida, existiam três guardiões do futebol em São Paulo.
O primeiro era o Pacaembu, com sua cara de sabedoria antiga.
Ele era bonito de um jeito que não se explica com palavras — só se sente. Suas arquibancadas pareciam braços que abraçavam todo mundo igual, sem escolher lado. Ele era casa de times, de clássicos, de domingos que tinham gosto de sorvete misturado com ansiedade.


O segundo guardião era o Morumbi, enorme como um gigante que decidiu morar no meio da cidade.
Quem olhava para ele de baixo sentia um frio na barriga, não de medo, mas daquele respeito que a gente tem por coisas muito grandes, muito antigas, muito vivas.
No Morumbi, os gritos viravam trovões. E cada gol parecia sacudir o chão.
O terceiro era o Canindé, talvez o mais acolhedor dos três.
Ele parecia um estádio que sorria, sabia?
Sorria com gente simples, famílias inteiras, torcedores que viviam o futebol como quem vive um piquenique de domingo, com coração aberto e camiseta esticada ao vento.
Esses guardiões viram jogadores lendários, dribles que pareciam mágicas, passes que desafiavam a física, goleiros voando como pássaros.
E viram também gente que não era jogador, mas amava o futebol como quem ama um amigo desde o berço.
Foi assim que eles conheceram Dulcidio Wanderley Boschilia…

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O Homem que Conversava com o Futebol
Dulcidio não chutava como Pelé, nem corria como Romário, nem defendia como Zetti.
Mas ele tinha algo que muitos craques não tinham:
ele sabia escutar o futebol.
Escutar de verdade.
Não com os ouvidos, mas com o peito.
Ele ouvia o estalo da chuteira na grama como quem ouve um segredo antigo.
Ouvia o rugido da torcida como quem escuta histórias de um povo inteiro.
Ouvia até o silêncio antes do gol, aquele instante em que o mundo prende a respiração.
E o futebol, esse ser invisível feito de paixão, também escutava Dulcidio.
Porque o amor que ele tinha pelo esporte era tão grande que até o vento parava para ouvir.
Por isso, quando chegou sua hora de partir, os que o amavam fizeram algo que pode até não ser compreendido, suas cinzas foram todas espalhadas ao vento, para que se amoldassem no gramado, como um amor único, um abraço eterno e de muito respeito
Para que ele ficasse ali, misturado à terra, à grama, ao vento que carrega histórias.
Dizem que o futebol sorriu naquele dia.
E nessa nossa conversa….te conto de você!
O Vento que Carrega Segredos
Pois bem… agora chegamos até você


Você que é pequeno, mas sente coisas grandes quando a bola rola.
Você que não sabe explicar por que gosta tanto de futebol.
Você que vibra, sorri, pula, se emociona sem saber de onde vem essa alegria.
Vou te contar um segredo:
essa alegria vem de longe.
Vem do vento que passa pelos estádios.
Vem dos gritos antigos que ficaram guardados no ar.
Vem dos dribles que foram tão bonitos que até hoje brilham como pequenas estrelas invisíveis.
Vem de gente como Dulcidio, que amou o futebol tanto que virou parte dele.

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