Não é mais novidade que Pessoas com TEA podem apresentar grandes desafios sensoriais. E quando eu digo “sensorial”, não estou falando de preferência, birra ou “falta de costume”. Estou falando de corpo.
Por isso, o barulho da escola — recreio, corredor, apito, microfone, ventilador, arrastar de cadeira — não é apenas desagradável. Pode virar ameaça.
O cérebro entra em alerta, a ansiedade sobe, a concentração some, o corpo pede fuga. Às vezes o aluno não “se recusa a participar”; ele não consegue permanecer.
O DSM-5, inclusive, reconhece que no TEA pode haver desafios enormes com estímulos sensoriais, causando respostas muito intensas a sons específicos. Ou seja: existe um fundamento técnico e humano por trás daquele comportamento que tanta gente insiste em julgar.
E é exatamente por isso que esse tema deixa de ser um “pedido da família” e deve ser tratado como acessibilidade.
Quando a escola reconhece a barreira sensorial
Daí vemos políticas públicas reconhecendo essa necessidade de atenção: O Estado de São Paulo sancionou a Lei nº 18.398/2026, que autoriza o fornecimento de protetores auriculares para estudantes com TEA na rede estadual.
Autorizar é abrir caminho para que a rede possa disponibilizar esse recurso como tecnologia assistiva, com a finalidade de reduzir estímulos auditivos e favorecer permanência e participação no ambiente escolar.
Aceitar a matrícula não é inclusão. A criança (ou adolescente) entra, mas não consegue ficar. Ou fica pagando um preço alto, na forma de exaustão, crises, faltas, evasão silenciosa.
Na mesma linha, a Comissão de Educação da Câmara aprovou um projeto que trata do fornecimento de dispositivos para controle de ruído como parte de tecnologias assistivas destinadas a estudantes com TEA em escolas públicas e privadas.
E isso é um avanço civilizatório. Porque quando um tema vira pauta institucional, ele deixa de depender exclusivamente da “boa vontade” de um gestor, de uma direção, de uma coordenação. Ele começa a se aproximar do lugar correto: o lugar de obrigação de garantir acesso em igualdade de condições.
Iniciativas em eventos públicos
Tem famílias que deixam de ir a eventos sociais e passeios por anos. Não é falta de desejo, é sobrevivência. o medo de uma crise em público, medo do julgamento.
Por isso eu considero muito simbólico ver iniciativas em réveillons e festas públicas.
Em Cabo Frio (RJ), houve distribuição de abafadores de ruído para Pessoas com TEA no Réveillon, com ponto de retirada organizado e orientações de documentação. Em Araranguá (SC), no Morro dos Conventos, também houve a oferta de protetores/abafadores para o público com TEA, com orientação de retirada no local.
A cidade de Santos (SP) vem estruturando um programa municipal – PROTESOM – com entrega de abafadores para pessoas sensíveis ao som, voltado a favorecer participação em atividades do dia a dia e em eventos públicos.
O que essas ações dizem, na prática, é simples e poderoso: “você pode estar aqui”.
Para Incluir é necessário eliminar barreiras
A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência consolidou uma visão importante: a deficiência não é apenas uma característica individual; ela aparece e se agrava quando impedimentos de longo prazo interagem com barreiras que impedem a participação plena e efetiva na sociedade.
Então, não é “a pessoa tem que aguentar”. Na realidade “o ambiente precisa se adaptar”.
O protetor auricular aqui pretende eliminar ou reduzir a barreira sensorial, mas ele não é solução única. Inclusão sensorial é um conjunto: previsibilidade, espaço de pausa, equipe orientada, ajustes de som e luz quando possível, acolhimento sem julgamento, respeito ao tempo da pessoa.
O dispositivo é ferramenta. A inclusão é uma decisão.
Quando políticas públicas e práticas concretas começam a derrubar barreiras, saímos do discurso e entramos no que interessa: vida digna para as Pessoas com TEA e para suas famílias.
Você está chegando agora nesse tema, saiba: aqui é um espaço para você se sentir acolhida. Se quiser, me escreva, conte suas dúvidas ou relate alguma situação que esteja vivendo com uma pessoa com TEA adulta ou idosa – ou com você mesma. Será um prazer caminhar ao seu lado, traduzindo a lei para a vida real e ajudando você a entender, passo a passo, quais direitos podem ser buscados na sua situação.
Um beijo e até a próxima quarta-feira,
Juçara Baleki
Fontes:
https://ndmais.com.br/turismo/pessoas-autismo-ano-novo-abafador-ruido/
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm
https://iacc.hhs.gov/about-iacc/subcommittees/resources/dsm5-diagnostic-criteria.shtml
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