O Futebol Corre Em Outra Velocidade

Nelson Rodrigues diria sem meias palavras que tudo nesse caso é “óbvio ululante”, aquilo que todos vêem,  mas poucos conseguem compreender.
Que sim, existe algo de profundamente humano no futebol e talvez por isso ele resista ao tempo, às mudanças táticas, às planilhas frias e às entrevistas ensaiadas.
O futebol de ontem tinha barro no joelho, rádio chiando e arquibancadas que pulsavam como um coração coletivo. Era menos explicado e mais sentido.
Os técnicos, figuras quase paternas, carregavam não apenas pranchetas, mas uma espécie de autoridade moral, como se fossem guardiões de um jogo que ainda não sabia que se tornaria indústria.
Hoje, o futebol corre em outra velocidade. É ciência, é dado, é algoritmo e  também espetáculo global.
No centro desse turbilhão, surge a figura inquieta do treinador moderno, um personagem que já não comanda apenas um time, mas administra egos, métricas, redes sociais e expectativas que atravessam continentes, falam em nome do clube, compram as broncas, vestem a camisa e se revoltam quando suas
exigências por um plantel mais forte não são atendidas.
Se antes o técnico era um maestro, hoje ele precisa ser quase um equilibrista.
A “dança dos técnicos”, essa rotatividade quase vertiginosa, revela muito mais do que simples impaciência dos dirigentes.
Ela expõe a ansiedade de um futebol que perdeu o tempo da maturação. Já não se espera o trabalho florescer; exigem o resultado imediato, como se o jogo pudesse ser reduzido a um gráfico ascendente.
Se o técnico for estrangeiro nessa terra de meu Deus, há um pouco mais de paciência, de compreensão, de espera respeitosa.
Mas se o técnico for da terra Brasilis, a ansiedade vem a tona e o cronômetro começa a girar.
E aqui talvez caiba lembrar Eduardo Galeano, que escrevendo deixou exposto seu pensamento… que o futebol moderno, por vezes, esquece o prazer e se entrega ao rendimento, como um trabalhador condenado à produtividade.
O torcedor nem consegue decorar o nome de seus ídolos, e se bobear nem poderá cobrar ações do seu técnico semanal
Mas é pelo torcedor que o futebol resiste, muito mais   em anos de Copa do Mundo FIFA, algo muda em pleno ar, a temperatura, a emoção, a ansiedade, a vontade de enfeitar a rua e a vibração de gol preso na garganta,  não é só calendário, é estado de espírito!
O mundo desacelera para assistir a bola rolar como se fosse a primeira vez.
E dizem que até quem não acompanha Campeonatos Regionais, nem Taças Intercontinentais, vibra, delira e dá uma chance para a Seleção Brasileira e se permite sentir.
É um fenômeno raro: o futebol deixa de ser clube e vira pátria emocional. As ruas ganham cor, os bares viram templos e os desconhecidos se abraçam como velhos amigos festejando a bola que entrou fez gol e se prendeu nas redes.
Existe uma suspensão da descrença por alguns dias, acreditamos novamente no improvável.
E talvez seja esse o maior milagre da Copa: ela nos devolve a infância.
Carlos Drummond de Andrade, que não era exatamente um cronista esportivo, mas compreendia a alma brasileira, poderia facilmente reconhecer nesse momento um tipo de poesia coletiva.
Porque o futebol, quando vivido assim, deixa de ser jogo e se torna linguagem, uma forma de dizer quem somos sem precisar de palavras.
Em ano de Copa, os técnicos deixam de ser apenas treinadores: tornam-se símbolos nacionais. Carregam nos ombros não apenas esquemas táticos, mas esperanças, frustrações e até feridas históricas. Cada substituição é julgada como um ato político. Cada derrota, uma espécie de luto coletivo.
Mas os técnicos do dia a dia, aqueles que circulam nas mídias, ficam nas fotos abraçados à jogadores e que cantam o hino nacional, esses tem validade muito curta.
E a dança continua, mais intensa, mais exposta, mais cruel.
No futebol de ontem, havia mais tempo para errar. No de hoje, o erro é quase imperdoável.
Talvez porque o mundo, de forma geral, tenha perdido a paciência.
Ou talvez porque, no fundo, ainda esperamos que o futebol nos salve.
E isso é uma exigência pesada demais para qualquer técnico, qualquer jogador, qualquer geração.
Infelizmente não temos mais jogadores de toque refinado, de superior qualidade, aqueles que assumem a posse da bola e resolvem a partida.
Será que não temos? Ou a exigência se tornou tão acirrada, o tempo tão curto para descobrir talentos, técnicos equilibristas que não conseguem resolver campo, bola, e administração que balança, balança e por pouco não cai…
E no meio dessa confusão toda, compre a pipoca, vista o uniforme e sente em frente à TV e vamos torcer porque esse ano, tem Copa do Mundo!

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