O futebol está na televisão, mas falta alguém no sofá.
O jogo começa, mas existe um silêncio escalado como titular absoluto da casa.
Porque há partidas que nunca terminam.
E nenhuma filha está preparada para perder o pai.
Nenhuma.
Mesmo quando o tempo avisa.
Mesmo quando a vida tenta ensinar sobre despedidas.
Mesmo quando a razão sussurra que a morte faz parte do jogo humano.
O coração continua revoltado como torcida em final de campeonato.
Hoje, o nome dele ecoa diferente:
Dulcídio Wanderley Boschilia.
Nome de homem forte.

Daqueles que talvez nem percebessem o tamanho do próprio amor porque pertenciam a uma geração que demonstrava afeto mais nos gestos do que nas palavras. Pais que arrumavam coisas quebradas da casa enquanto silenciosamente sustentavam o mundo inteiro sobre os ombros.
Talvez ele nunca tenha imaginado que um dia seria saudade desse tamanho.
E que saudade curiosa é a saudade de pai…
Ela não sente falta apenas dos grandes acontecimentos.
Sente falta das banalidades sagradas.
Da voz chamando pelo nome.
Do jeito de sentar no sofá.
Do comentário indignado com o juiz.
Da reclamação depois de um gol perdido.
Do barulho da televisão em um domingo qualquer.
A vida descobre tarde demais que felicidade quase sempre morava nas coisas pequenas.
Hoje, talvez, uma filha daria qualquer coisa por apenas mais cinco minutos.
Cinco.
Não para discutir assuntos profundos.
Nem para mudar o destino.
Nem para pedir respostas filosóficas sobre a existência.
Só cinco minutos.
Para abraçar mais uma vez.
Para ouvir a respiração calma de quem parecia eterno.
Para beijar o rosto já conhecido pela memória das mãos.
Para assistir futebol lado a lado outra vez, mesmo sem prestar tanta atenção no jogo.
Para ouvir uma história antiga sendo contada como se fosse novidade.
Porque o amor verdadeiro possui essa estranha simplicidade.
Ele não pede milagres grandiosos.
Pede presença.
Rubem Alves escreveu certa vez:
“Saudade é a alma dizendo para onde ela quer voltar.”
E talvez hoje a alma queira voltar exatamente para uma sala antiga, em alguma tarde distante, onde ainda existia um pai vivo comentando futebol enquanto o mundo parecia seguro.
Há algo profundamente brasileiro nisso tudo.
Porque o futebol nunca foi apenas futebol.
Ele sempre foi encontro.


Foi ritual.
Foi linguagem afetiva de famílias inteiras.
Quantos pais ensinaram filhos a amar um clube antes mesmo de ensiná-los sobre política ou filosofia? Quantos abraços aconteceram em gols decisivos? Quantas reconciliações nasceram em tardes de campeonato? Quantas memórias foram costuradas entre rádios ligados e narrações emocionadas?
O futebol virou herança emocional.
E talvez por isso doa tanto assistir sozinha agora.
O estádio continua cheio.
Os narradores continuam gritando.
As torcidas continuam cantando.
Mas existe uma cadeira vazia dentro do coração.
E cadeira vazia faz eco.
A morte possui uma crueldade silenciosa: ela interrompe conversas no meio. Deixa perguntas sem resposta. Suspende abraços que imaginávamos infinitos. Faz com que, anos depois, alguém ainda pense:
“Eu deveria ter dito mais.”
“Eu deveria ter abraçado mais.”
“Eu deveria ter ficado mais cinco minutos.”
Mas o amor entre pai e filha nunca termina exatamente.
Ele muda de dimensão.
Mora agora nas lembranças involuntárias.
Nos hábitos herdados.
Nas expressões repetidas sem perceber.
Na maneira de enxergar o mundo.
Nos valores que permaneceram vivos mesmo depois da ausência.
Talvez seja essa a verdadeira eternidade humana: continuar existindo dentro de alguém.
Dulcídio talvez ainda esteja presente no modo como a filha sente compaixão, no modo como protege quem ama, no modo como olha para um jogo de futebol e instantaneamente volta a ser criança por alguns segundos.
Porque pais não desaparecem completamente.
Eles ficam espalhados.
Num conselho antigo.
Numa fotografia amarelada.
Num domingo melancólico.
Numa saudade inesperada que chega sem pedir licença.
E hoje, enquanto o futebol corre na televisão como sempre correu, existe uma filha olhando para o tempo com a mesma revolta de um torcedor diante do apito final.
Porque nunca estamos preparados para o último jogo.
Fernando Pessoa escreveu:
“A morte é a curva da estrada.
Morrer é só não ser visto.”
Talvez seja isso.


Talvez existam amores que continuam assistindo conosco, invisíveis, sentados exatamente onde costumavam sentar.
Talvez o céu tenha mesmo arquibancadas enormes, rádios antigos transmitindo partidas eternas e homens bons comentando futebol enquanto esperam aqueles que amam.
E talvez, em algum lugar além daquilo que entendemos, um pai ainda sorria ao perceber que continua sendo lembrado com tanto amor.
Porque no fim, o que vence a morte não é o tempo.
É a memória.
E hoje, Dulcídio Wanderley Boschilia venceu novamente.
Dentro da saudade de uma filha que ainda trocaria o mundo inteiro por mais cinco minutos no sofá ao lado dele.
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