Os Que Jogavam Sem Pedir Aplauso

Um dia desses me fizeram uma pergunta interessante, qual das crônicas me deu mais prazer em escrever?
Depois de quase dois anos, ininterruptos, fica difícil escolher, afinal em cada uma delas, coloquei meu melhor trabalho.
E claro, sempre lembro do meu pai, em cada segundo do meu dia, e garanto que a saudade não diminui, ela bate forte, pensando o que ele faria em determinadas situações da vida, e como seria poderoso seu abraço e seu beijo ao cair da noite.
Então me lembrei dessa que foi bastante especial….
O casamento de meus pais….
Quem não leu, pode se encantar!
E antes que o padre…”eu vos declaro marido e mulher”, anunciasse ao pequeno grupo de testemunhas deste casamento, a cerimônia foi interrompida por diversas e inúmeras vezes.
Da sacristia um fanático por futebol e não tanto por casórios, ouvindo o rádio enorme e pesado, gritava GOOOOOOOOOLLLLLL, e todo mundo corria para festejar…Esse dia tão especial.
Corria o noivo, a noiva também, os padrinhos que não conheciam os noivos e o padre torcedor confesso do Grêmio. Os coroinhas, os curiosos e os familiares da noiva, a muito contragosto.
E a festança foi enorme por que nesse dia 28 de junho de 1958, na Suécia, o Brasil decidia sua primeira Copa do Mundo e foi um “baile” de Brasil 5×2 Suécia.
Sete gols e muitas paradas na cerimônia de casamento.
Só mesmo meu pai, para se casar na decisão da Copa do Mundo….
Tenho ou não tenho razão para amar futebol?
Está no sangue!!!
Mas aqui estamos para tratar de futebol e ….
Há uma melancolia bonita em lembrar de quem jogava futebol sem fazer alarde.
Como se cada partida fosse menos um espetáculo e mais um ofício. Um compromisso com a bola, com o campo, com o instante. Não havia a urgência de ser visto, havia apenas a necessidade de jogar bem.
Oscar Bernardi era assim. Já falamos dele, mas é impossível não voltar. Porque certos jogadores não passam, permanecem.
Na sua forma de defender parecia ensinar que o futebol não precisa ser excessivo para ser grandioso. Bastava compreender o jogo.
Mas o futebol não se constrói só na defesa.
No meio de campo, haviam homens que pensavam o jogo com uma delicadeza quase invisível.
Cerezo, por exemplo, era ritmo. Não corria, conduzia.
Sabia a hora de acelerar, de segurar, de respirar. Era o tipo de jogador que organizava o mundo ao redor sem levantar a voz.
E havia Falcão, que jogava de cabeça erguida mesmo quando não estava com a bola. Ele procurava o companheiro, mais bem posicionado e passava a bola, com exatidão. Olhar de estrategista em campo, como se visse o jogo de cima, antecipando movimentos, desenhando caminhos.
Havia um “menudo” de nome Vizolli, conhecido como guardião da zaga, que cheio de orgulho, jogava junto com seus ídolos. À pouco tempo, esses ídolos estavam no seu álbum de figurinhas e de repente em campo, todos por um ideal e amor a camisa.
Mais discretos ainda, quase esquecidos pelas narrativas modernas, vieram nomes como Silas, com seu toque refinado, e Pita, que carregava uma elegância simples, sem urgência de reconhecimento.
E lá na frente, existiam os atacantes que não precisavam de marketing para serem letais.
Careca, com seu faro silencioso de gol, não fazia espetáculo antes de finalizar, fazia gol. E esse era o espetáculo, a razão do Futebol Arte.
Palhinha, sempre no lugar exato, como se tivesse um acordo secreto com a bola. E Nunes, decisivo, intenso, mas ainda assim distante da idolatria barulhenta que hoje se fabrica.
O curioso é que muitos desses jogadores foram gigantes, sem alarde, mas sem a aura inflada que hoje se constrói em torno de quase tudo.
Não havia redes sociais para eternizar lances em looping. Não haviam câmeras suficientes para transformar cada gesto em espetáculo.
Havia o jogo, cru, direto, humano.
E talvez por isso eles sejam tão grandes na memória.
Porque não dependem da repetição para existir.
Não precisam de edição, de trilha, de narrativa pronta. Vivem na lembrança de quem viu,  ou de quem, ao ouvir, quase consegue ver.
Hoje, o futebol é outro.
Mais rápido, mais forte, mais exposto. Mas, por vezes, menos sentido. Há talento, claro, e muito talento.
Mas há também uma certa pressa em ser lembrado, o  que impede o jogador de simplesmente ser e realizar.
E ser… era o que aqueles sabiam fazer.
Oscar Bernardi, repito, não jogava para aparecer,  jogava para resolver.
Falcão não corria atrás do jogo, o jogo o seguia.
Vizolli, não deixava passar, aqui não!
Careca não anunciava o gol,  ele acontecia.
Talvez seja isso que sentimos falta.
Não apenas da técnica, nem só da raça, mas da autenticidade.
Daquele futebol que não precisava provar nada a ninguém, porque já era suficiente em si mesmo.
Os que jogavam sem pedir aplauso, acabaram se tornando, sem saber, os mais dignos de serem lembrados.
Esse é o nosso compromisso, queridos leitores, manter viva essa memória!

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