Lyon — O que permanece quando tudo passa

Olá, amigos!

Enquanto nos preparamos para a nossa última semana em Lyon, na França, depois de sete anos de uma intensidade inimaginável, nosso coração transborda de gratidão.

Hoje é aniversário da nossa filhinha Sophia, que completa 13 anos. Na realidade, quero tomar emprestadas duas lições da vida dela para a reflexão desta semana.

A primeira delas eu já havia compartilhado em outras colunas. Sophia conquistou medalhas de ouro nas competições municipal, regional e nacional de ginástica. O que torna essa história ainda mais especial é que tudo isso aconteceu enquanto ela enfrentava o tratamento da escoliose e, pouco antes da primeira competição, sofreu uma fratura no braço. Ela ficou um mês sem treinar, retirou o gesso poucos dias antes do torneio e foi competir praticamente sem preparação.

Quando ela venceu a primeira competição, antes da etapa regional, eu procurei preparar o coração dela.

— Filha, o papai já está muito orgulhoso de você. Não importa o resultado.

A competição regional era muito mais difícil.

Ela venceu novamente.

Antes da etapa nacional, com mais de sessenta atletas em sua categoria, repeti praticamente as mesmas palavras.

— Filha, você já chegou até aqui. O papai já está muito orgulhoso de você.

Confesso que jamais imaginei que ela conquistaria mais uma medalha de ouro.

Mas ela venceu outra vez.

Isso me faz pensar como, muitas vezes, enxergamos apenas os limites da realidade, enquanto Deus continua trabalhando para além daquilo que conseguimos imaginar.

Sempre me lembro das palavras do apóstolo Paulo, escritas a uma comunidade que vivia na antiga cidade de Éfeso, na atual Turquia:

“Deus é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos.”

Existe uma parte que nos cabe: lançar a semente, trabalhar com dedicação, amar pessoas, educar os filhos, construir relacionamentos, servir com sinceridade e perseverar um dia de cada vez.

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Mas existe outra parte que acontece silenciosamente, debaixo da terra, onde não conseguimos enxergar. É ali que Deus continua fazendo crescer aquilo que um dia plantamos.

A segunda lição veio justamente nesta semana.

Enquanto retirávamos alguns desenhos da parede do quarto da Sophia, encontrei uma pequena frase escrita por ela:

“I am OK. This won’t last forever.”

“Eu estou bem. Isso não vai durar para sempre.”

Naquele instante percebi que essa frase descrevia exatamente o momento que estamos vivendo.

Estamos deixando a França.

Estamos encerrando um ciclo.

Projetos começam e terminam. Casas ficam para trás. Objetos envelhecem. Paredes são pintadas novamente. Tudo passa. Mas existe algo que permanece.

Hoje, enquanto escrevo esta coluna, penso nas centenas de pessoas que cruzaram nosso caminho ao longo desses sete anos.

Na verdade, elas sempre foram o verdadeiro projeto. A associação francesa continuará existindo. Os cursos de francês continuarão. O nosso Coffee Shop  continuará recebendo pessoas. Tudo isso é importante.

Mas tudo isso sempre foi apenas consequência de algo muito mais profundo: encontros humanos. Vivemos a alegria de reunir pessoas de mais de oitenta nacionalidades diferentes. Refugiados e professores universitários. Doutores e pessoas em situação de vulnerabilidade. Católicos, protestantes, ortodoxos, muçulmanos, ateus, agnósticos e pessoas sem qualquer tradição religiosa.

Todos sentados na mesma mesa. Todos servindo juntos.

Todos descobrindo que existe mais aquilo que nos aproxima do que aquilo que nos separa.

Talvez uma das imagens que jamais esquecerei tenha acontecido logo no início da guerra entre Rússia e Ucrânia.

Abri a porta do nosso café. Sem perceber, as duas primeiras pessoas que entraram eram um ucraniano e um russo.

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Preparei o café para ambos. Poucos minutos depois, lá estavam eles conversando naturalmente na mesma mesa.

Naquele dia pensei que o mundo pode, sim, ser um lugar melhor.

Hoje deixamos Lyon com a certeza de que tudo, nesta vida, acontece por uma temporada.

Mas também partimos convencidos de que aquilo que realmente importa não termina quando um projeto termina. As amizades permanecem. As memórias permanecem.

O amor permanece.

E talvez seja exatamente isso que Deus faz durante toda a nossa caminhada: transforma projetos em pessoas, encontros em amizades e temporadas em legados que carregaremos para sempre no coração.

Fábio

Collonges au Mont D’Or.

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