Essa crônica está sendo escrita, ou, se preferirem, narrada, ainda é sexta-feira, início de um novo mês de julho.
Faltam apenas algumas horas para o Brasil entrar em campo diante da Noruega.
E ao lerem essas linhas, estarão provavelmente “acordando” o domingo antes mesmo de raiar o dia.
Talvez a tensão já tenha tomado conta da sala de casa.
Talvez os gritos tenham atravessado os muros da vizinhança, misturando esperança, apreensão e aquele velho hábito de acreditar que, desta vez, tudo dará certo.
Confesso que, neste instante em que escrevo, prefiro deixar as preocupações fora das quatro linhas.
O Brasil já enfrenta batalhas suficientes todos os dias. Que, ao menos por noventa minutos, permaneça apenas no campo das disputas esportivas, onde as derrotas doem, mas podem ser superadas com outro campeonato, outra geração, outro sonho.
Imagino que, enquanto vocês me leem, o cenário seja quase o mesmo em milhares de lares brasileiros.
No varal balança a velha camisa amarela, já um pouco desbotada pelo tempo, mas carregada de lembranças. Ao lado dela, quem sabe, a inseparável cueca da sorte, aquela que ninguém admite usar por superstição… mas também ninguém ousa abandonar em dia de disputa de Campeonato.
A churrasqueira improvisada já deve estar acesa.
A costela repousa lentamente sobre o fogo.
O cheiro da fumaça invade o quintal antes mesmo do apito inicial.
São rituais silenciosos, quase sagrados, repetidos geração após geração, e se falha a tal “mandinga?” Esse é um detalhe à ser esquecido…
Não garantem vitórias, é verdade.
Mas ajudam a alimentar uma certeza que o futebol nunca conseguiu explicar: a de que, de alguma forma, todos nós participamos da partida.
É curioso perceber que, até poucos dias atrás, cada brasileiro tinha sua própria seleção na cabeça. Havia quem defendesse a convocação de Victor Roque. Outros juravam que Yuri Alberto faria diferença. Muitos ainda suspiram pelo talento de Pedro e imaginam que, se ele estivesse em campo, o coração bateria um pouco mais tranquilo.
Também nunca falta quem escolha outro treinador, outro esquema tático ou outra escalação.
Mas chega um momento em que toda essa discussão perde força.
No exato instante, quando a bola começa a rolar, desaparecem as preferências individuais.
A camisa amarela passa a representar muito mais do que onze jogadores.
Representa milhões de pessoas que, por alguns instantes, encontram um elo invisível e respiram no mesmo compasso.
Como diz o velho ditado: É o que temos para hoje!
Ou, melhor ainda, é o que temos para este domingo!
Os noruegueses podem carregar consigo a tradição dos antigos vikings, navegadores destemidos que desafiaram mares gelados e escreveram sua própria história.
Nós, por nossa vez, carregamos outra herança: cinco estrelas bordadas no peito, construídas por gerações de craques que ensinaram ao mundo que o futebol também pode ser arte.
Eles terão sua torcida.
Nós teremos a nossa, que transforma ruas em arquibancadas, salas em estádios e qualquer televisão em palco de emoções.
E, cá entre nós, gosto de imaginar que, em algum lugar invisível, Pelé, Garrincha, Tostão, Roberto Dinamite, Sócrates, Zagallo e tantos outros gênios do nosso futebol estejam reunidos, fazendo aquela corrente de pensamentos que só os verdadeiros deuses da bola conhecem.
Não os deuses do Olimpo, mas os deuses das chuteiras, das camisas enlameadas e dos gols inesquecíveis.
No futebol, a lógica quase nunca vence sozinha.
Às vezes vence a coragem. Às vezes a inspiração.
Às vezes um detalhe. Um passe improvável. Uma defesa milagrosa. Um chute que encontra exatamente o único espaço possível.
Por isso, o que realmente desejo é que cada atleta brasileiro compreenda o privilégio e a responsabilidade de vestir essa camisa. Que honre cada criança que sonha ser jogadora, cada família reunida diante da televisão, cada trabalhador que interrompe a rotina apenas para acreditar por algumas horas que o impossível pode acontecer. E ser feliz de alma lavada!
Enquanto vocês acompanham a partida, talvez já tenham feito promessas, recorrido às simpatias de sempre, mudado alguém de lugar no sofá porque “estava dando sorte” ou repetido algum ritual que desafia qualquer explicação racional. Faz parte!
O futebol brasileiro sempre conviveu muito bem com a técnica… e com a esperança.
Então, boa sorte, Brasil.
Que cada passe carregue um pouco da nossa história. Que cada corrida leve consigo a força do nosso povo. Que cada gol, todos que vierem, sejam comemorados como um abraço coletivo entre milhões de brasileiros que insistem em acreditar.
E eu? Bem… como ainda é sexta-feira enquanto escrevo estas linhas, vou até a igreja fazer o que muitos torcedores fazem em silêncio: rezar um pouquinho mais. Nunca se sabe….
No futebol, como na vida, fé também faz parte da escalação e joelho no chão!
Sou Advogada, Operadora do Direito e Jornalista pelas Faculdades Metropolitanas Unidas e Universidade Nove de Julho. Coordenadora para Assuntos Institucionais e Assessoria de imprensa do Instituto Pro Cidadania em prol das Pessoas com Deficiência.
Palestrante. Escritora e Autora de Romances Históricos e Biografias. Livros de poesia e arte premiados no Sul do Brasil.
Meta: Informar e Resgatar boas memórias do Esporte.
Sonhar é o Objetivo e Conquistar uma Certeza.
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