MAIS UMA CRIANÇA COM AUTISMO SOFREU MAUS TRATOS NA ESCOLA – E SE FOSSE SEU FILHO?

Não é exagero. Não é metáfora. Um aluno com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), foi encontrado amarrado dentro de um banheiro de uma escola particular no Paraná.

Amarrado. Com pano e fita adesiva.

A própria escola ligou para os pais, informando que o menino estaria passando por uma “crise” e pedindo que o buscassem. Mas o que os responsáveis viram ao chegar não tem nome que caiba. O filho deles, trancado, contido com as mãos e os pés imobilizados. Chorando. Repetindo que aquilo era um castigo.

Como advogada, o raciocínio lógico e jurídico pensa em nomear, apurar e responsabilizar: o que aconteceu ali foi crime, deve haver uma investigação ampla e todos os envolvidos devem ser responsabilizados!

Mas eu também sou mãe de um rapaz com autismo e essa notícia me chocou. Não há como não pensar: E seu fosse meu filho? – Chorei.

A escola alegou que a atitude foi necessária para conter o comportamento da criança. Mas pera lá: não há respaldo legal, ético ou pedagógico para esse tipo de prática. O uso de contenção física, feita por pessoas sem qualquer capacitação técnica, e ainda por cima em local isolado, é inadmissível.

Haverá inquérito. Intervenção do Conselho Tutelar. É muito provável que a família e a criança sejam indenizadas pelo dano moral sofrido.

Mas nada disso vai apagar a cicatriz que ficou neles.

Vou além: como garantir que outras crianças não estejam passando, hoje mesmo, por algo parecido — só que sofrem em silêncio, pois muitas delas são não verbais ou apresentam um repertório restrito de comunicação para denunciar que sofrem atrocidades como essa.

Educadores e especialistas ouvidos na mídia foram categóricos: houve falha grave. Grave não só pela violência explícita, mas por tudo que ela revela. A falta de preparo da equipe. A inexistência de qualquer protocolo minimamente respeitoso.

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Quando uma escola amarra uma criança, ela também amarra todo um projeto de inclusão que tantas famílias lutam para construir.

Esse episódio pode gerar traumas, medo e regressão de habilidades.

É importante repetir: isso não é cuidado. É violência – é crime!

Importante relatar aqui a tristeza que nós familiares sentimos sobre a errada crença de que pessoas com autismo tem “comportamentos inadequados” que devem ser contidos ou erradicados.

Como se fosse responsabilidade da criança se adaptar a qualquer custo, mesmo que esteja em sofrimento sensorial, mesmo que não consiga nomear a angústia, mesmo que esteja pedindo socorro do único jeito que sabe.

Há pessoas com autismo que batem a cabeça na parede, gritam, mas não conseguem comunicar que estão com dor. Os pais por vezes atuam como detetives para investigar e interpretar sinais de desconforto que aparecem travestidos de comportamentos diferentes.

A Lei Brasileira de Inclusão (LBI) obriga todas as escolas — públicas e privadas — a garantir não só a matrícula, mas também o acesso digno e seguro à aprendizagem.

Isso inclui o dever de conhecer a criança, suas formas de se comunicar, suas necessidades específicas.

Mas, infelizmente, o que vemos, dia após dia, são instituições que culpabilizam o aluno por aquilo que não compreendem e que seguem operando com o discurso da inclusão apenas no papel.

Inúmeras famílias vivem com medo de episódios como esse. Quantos meninos e meninas com TEA são punidos por expressar desconforto, angústia, sobrecarga sensorial — e tudo isso é interpretado como má conduta?

Não adianta nota oficial dizendo que “medidas serão tomadas”. Esse menino precisava de proteção, não de fita adesiva. Precisava de um plano, não de um castigo. Precisava de um educador, não de um carcereiro.

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E mais do que responsabilizar os culpados — o que é urgente —, precisamos transformar esse horror em mudança concreta. Formação obrigatória, fiscalização real, escuta ativa das famílias e protocolos respeitosos.

Como mãe e como advogada, meu coração está com essa família — e com tantas outras que vivem, todos os dias, o medo de ver seus filhos isolados, invisibilizados, punidos ou maltratados por terem comportamentos que são considerados inadequados.

Eu sei que é desafiador. Sei que é cansativo. Mas conhecer os direitos e exigir inclusão não é escolha — é necessidade. Não há alternativa. Temos que seguir!

Conheça e acompanhe notícias sobre os Direitos das Pessoas com autismo aqui. Me escreva sobre suas dúvidas ou compartilhe algum desafio se desejar. Será uma honra caminhar com você nessa jornada de acolhimento e amor.

Um beijo e até a próxima quarta-feira,
Juçara Baleki

@querotratamento

Fontes:

 

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