É 24 de dezembro.
Tem luz piscando na janela dos outros, panela no fogo, gente resolvendo “só mais uma coisa” antes da ceia. E tem também um outro tipo de véspera acontecendo, mais silenciosa: aquela em que uma mãe tenta deixar o dia caber dentro do possível.
Porque nem toda noite feliz vem com festa. Nem toda família consegue fazer do jeito tradicional. Para muitas Pessoas com TEA, esse período muda tudo ao mesmo tempo: rotina, sono, comida, casa cheia, vozes sobrepostas, cheiros diferentes, abraços inesperados, músicas altas, expectativas no ar.
E quando a pessoa sente o mundo com mais intensidade, o fim do ano pode ser bonito — mas também pode ser pesado.
Às vezes, a mãe não está preocupada com a sobremesa. Está calculando o caminho mais curto até a porta, caso precise sair. Está pensando se leva o fone abafador. Está lembrando do alimento “seguro” que funciona quando todo o resto falha. Está torcendo para que a noite seja tranquila. Está tentando, com carinho, evitar uma sobrecarga sensorial.
Se você tem por perto uma mãe de uma criança com TEA, talvez você queira se aproximar e não saiba bem como. Talvez você tenha medo de falar algo errado. Talvez você ache que precisa fazer um grande gesto — e aí trava.
Mas pode ser muito mais simples.
Se quiser convidar, convide. De um jeito leve. Sem formalidade, sem aquela sensação de “tem que ir”. Diga que a casa está aberta, que não precisa cumprir horário, que tudo bem passar só um pouquinho.
E se você quiser acrescentar um cuidado pequeno, que muda o tamanho da noite, pode dizer algo como: “Se ele quiser ficar mais quietinho, a gente dá um jeitinho. Tem um cantinho mais tranquilo aqui.” Não precisa preparar nada perfeito. Só a ideia de existir um lugar para respirar já acalma.
Abra espaço: “Tem algo que ele não pode comer?” ou “Quer levar o que ele já está acostumado?” ou “Quer que eu separe alguma coisa mais simples pra ele?”
Porque às vezes tem seletividade alimentar. Às vezes tem intolerância. Às vezes tem uma textura que não desce. Quando alguém pergunta, com delicadeza, a mãe sente que não precisa se explicar tanto.
Agora, pode acontecer de ela não ir. Pode acontecer de ela dizer que vai e, em cima da hora, recuar. Pode acontecer de ela sumir do grupo e aparecer só no dia seguinte.
Nessa hora, não leve para o lado pessoal. Às vezes a casa ficou barulhenta demais. Às vezes a criança não está bem. Às vezes o corpo da mãe já passou do limite.
E está tudo bem.
O que faz diferença — de verdade — é ela sentir que, mesmo assim, o vínculo continua. Que o carinho não depende de presença na foto. Que o convite não vira cobrança.
No ano que vem, convide de novo.
Porque tem Natais que não cabem em mesa farta e sala cheia. Tem Natais que acontecem na calma de uma casa com luz mais baixa. E, às vezes, o presente mais bonito é alguém do lado de fora entender isso.
Se você está chegando agora nesse tema, saiba: aqui é um espaço para você se sentir acolhida. Se quiser, me escreva, conte suas dúvidas ou relate alguma situação que esteja vivendo com uma pessoa com TEA adulta ou idosa – ou com você mesma. Será um prazer caminhar ao seu lado, traduzindo a lei para a vida real e ajudando você a entender, passo a passo, quais direitos podem ser buscados na sua situação.
Um beijo e até a próxima quarta-feira,
Juçara Baleki
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