Check-in da Lau: descobri que eu também vivia na margem

Durante muito tempo achei que conhecia São Paulo. Descobri que, na verdade, eu só me aventurava pelos lugares que já conhecia. Se trabalhasse todos os dias fora de casa, provavelmente diria que conhecia apenas o caminho entre a minha casa e o trabalho.

Sabe aquela história de zona de conforto? Acho que finalmente estou começando a entender o que ela significa. É aquele café onde você já sabe o que vai pedir, o restaurante onde nunca precisa olhar o cardápio, o bairro em que conhece cada esquina. O novo fica ali do lado, mas a gente passa reto. O conhecido é seguro. O desconhecido exige coragem.

Foi caminhando por São Paulo que percebi uma coisa curiosa: eu fazia exatamente a mesma coisa comigo. Sempre ficava no canto, na margem. Sempre existia um “e se?”. E se eu não gostar? E se der errado? E se eu me machucar? E se acharem estranho?

Nesse momento o texto já nem fala mais sobre cafés, museus ou restaurantes. Fala sobre assumir o controle da própria vida. Da minha vida.

Tenho descoberto que realizar sonhos não é apenas viajar mais, conhecer lugares diferentes ou criar projetos novos. É ocupar espaço. Não para ser maior do que ninguém, mas para ocupar um lugar que, durante muito tempo, eu nem sabia que também era meu.

Percebi isso quando banquei financeiramente minha segunda viagem internacional. Quando passei meu aniversário na minha própria companhia. Quando comecei a escrever textos que falam muito mais sobre mim do que sobre os destinos. De fora, parecem acontecimentos comuns. Por dentro, foram pequenas mudanças de endereço.

A ansiedade continua aparecendo. Ainda antecipo problemas que talvez nunca aconteçam. Ainda penso no julgamento antes mesmo que ele exista. A diferença é que hoje consigo reconhecer esses sentimentos. Eles continuam aqui, mas já não ocupam o centro. Aos poucos, vou colocando cada emoção no lugar dela.

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A terapia me ensinou uma coisa importante: inteligência emocional não é deixar de sentir. É não permitir que cada emoção decida o próximo passo por você.

E São Paulo, curiosamente, acabou virando minha professora. Continua caótica, barulhenta, cheia de problemas. Mas também continua surpreendente, acolhedora e viva. A cidade nunca mudou. Quem mudou fui eu.

Foi desse movimento que nasceu o São Paulo Sem Roteiro. Muita gente pode pensar que é um projeto para conhecer a cidade. E é. Mas, para mim, ele também representa outra coisa.

Percebi que passei boa parte da vida seguindo roteiros que já estavam prontos. O caminho esperado, o lugar seguro, a escolha mais previsível. Agora quero experimentar outra forma de caminhar. Não sem direção, mas com liberdade.

Um mapa mostra possibilidades. Apresenta ruas, caminhos, atalhos. Mas ele nunca escolhe o destino por nós.

Talvez seja exatamente isso que eu esteja aprendendo.

Ter um mapa nas mãos não significa precisar de um roteiro.

Significa ter coragem para decidir o próximo passo.

E acho que o São Paulo Sem Roteiro nasceu justamente quando comecei, pela primeira vez, a escrever o meu roteiro.

 

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