Cosimo I e a pergunta que fica para nós: O que permanece depois do poder?

Neste fim de semana estive em Florença recebendo um grupo dos Estados Unidos para falar sobre a história da Igreja, arte e espiritualidade.

Florença é uma cidade extraordinária. Considerada o berço do Renascimento, acumula capítulos que remontam ao período do Império Romano, quando foi fundada no ano 59 a.C. E mais ainda: o charme de cada galeria de arte, museu e café traz um ambiente singular e faz da cidade uma das mais belas da Europa.

Este museu a céu aberto, como é conhecida, abriga a quarta maior catedral da Europa, a Catedral de Santa Maria del Fiore. O Batistério de San Giovanni é o mesmo onde foi batizado Dante Alighieri, o pai da língua italiana e autor de uma das obras mais influentes do Ocidente, A Divina Comédia. Suas portas de bronze, conhecidas como “Portas do Paraíso” graças a Michelangelo, seguem encantando multidões.

Aliás, Michelangelo tem participação ativa e crucial na história da cidade durante o século XVI. Uma de suas esculturas mais conhecidas, o Davi, está na Academia, próxima ao centro, visitada todos os anos por milhares de pessoas. Já a Pietà, no Museu da Catedral, representa Nicodemos segurando Jesus, ladeado por Maria e Maria Madalena. O detalhe significativo é que o rosto de Nicodemos reproduz, na realidade, a imagem do próprio artista, Michelangelo.

Dito isto, poderia seguir escrevendo sobre outros nomes históricos que marcam a cidade: Galileu, Giorgio Vasari, Maquiavel, Leonardo da Vinci e, claro, os integrantes da família Medici.

Durante um almoço, uma das participantes do grupo comentou:
“Fábio, o que mais me chamou a atenção nas tuas palestras foi a figura imponente e poderosa de Cosimo I, o chamado Grande Duque da Toscana.”

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Ela prosseguiu:
“Fiquei chocada ao ouvir sobre Cosimo I e seu poder. Ele transformou a Piazza della Signoria em um espaço público de cerimônias e encomendou esculturas carregadas de mensagens políticas. O Davi derrotando Golias, Hércules vencendo seus inimigos, e Perseu com a cabeça da Medusa representavam de forma clara o triunfo, o prestígio e o poder da família Medici. Talvez a mais impressionante seja a primeira fonte pública no centro da praça, a Fonte de Netuno, construída para celebrar o casamento de Francesco I de Medici com Joana da Áustria, em 1565.”

Esse casamento foi celebrado com grande pompa no Duomo, seguido de festas públicas e eventos artísticos — os Medici sempre souberam unir política, cultura e espetáculo. O mais impressionante é que a Fonte de Netuno traz o rosto de Cosimo I esculpido na figura do deus marinho, reafirmando o poder militar e a expansão da República Florentina. Além disso, já havia na mesma praça uma estátua equestre de Cosimo I, símbolo da sua autoridade.

A ostentação de poder não parou aí. Cosimo I encomendou a Giorgio Vasari o famoso Corredor Vasariano, uma passagem elevada e privada que ligava os escritórios da administração — hoje Museu Uffizi — ao Palazzo Pitti, sua residência. Essa “ponte suspensa” ainda hoje pode ser vista na charmosa Ponte Vecchio, que guarda histórias que remontam ao Império Romano.

Pois bem, apesar de tanto poder, controle e ambição, a mesma participante me contou que perguntou a algumas pessoas em Florença — no hotel, em táxis, na rua — sobre o legado da família Medici. A resposta foi: “nenhum”. Quase ninguém soube identificar herdeiros ou descendentes. Um indivíduo disse conhecer alguém que ainda carrega o sobrenome mais influente do século XVI, mas hoje esse nome não traz nada além de lembranças de um período de ostentação e poder.

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E nós? Qual legado você e eu deixaremos para as nossas filhas e filhos? Que lembrança queremos oferecer às pessoas que cruzam a nossa jornada?
Será que seremos lembrados pelo poder que buscamos acumular? Será que seremos lembrados por tantos “likes” e seguidores nas redes sociais? Ou pela humanidade que conseguimos viver e transmitir?

Até a próxima.

Fábio

Collonges au Mont D’Or

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Respostas de 6

  1. Boa pergunta, Fábio! Digo a minha resposta: meu maior legado foi o de apresentar Jesus Cristo aos meus filhos, para que possam ter um relacionamento sério e profundo com Deus. Quanto ao mais “convém que Ele cresça e eu diminua”.

  2. Grande Fábio !!!! Parabéns por mais um grande trabalho… A questáo do legado, eu fico a pensar se o significado desta palavra, vai conseguir chegar aos cerebros dos mais jovens de hoje !!!! Voce faz uma boa comparaçäo com os Likes das redes sociais, mas eu acredito que esta futilidade, que ja nasceu meio desvalorizada, irá a pior dentro mais algumas décadas……Por outro lado o Casella Padovan, teve uma atitude fantástica, e tem sido esta a minha espectativa de fazer o mesmo com meus netos e bisnetos…..Contudo, escrever a história, como voce faz, talvez tenha sido isto, o que nossos pais omitiram e nós devemos resgatar….Abraços desde Malaga, España.

    1. Querido amigo Orfeo,
      Acredito que todos nós, se temos o mínimo de sanidade, queremos deixar o nosso legado para as pessoas que mais amamos e desejamos o bem na face desta Terra, a saber, os nossos filhos, netos, e bisnetos.
      Que Deus te conduza nesta tarefa de pai, avô e bisavô.
      Eu sei que Ele tem te conduzido.
      Um forte e caloroso abraço.
      Fábio

    1. Olá Mirian,
      Que bom ver você por aqui.
      Que Deus nos ajude, a todos nós, a construir legados que permaneçam e tenham valor eternos.
      Ótima semana para você. Até a próxima.
      Fábio

  3. Querido Armandão,
    Linda mensagem. Lindo comentário.
    E eu sei que os teus meninos, Marcio e Tiago, receberam este legado lindo e inapagável do senhor.
    Um forte abraço. Ótima semana!
    Fábio

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