Do Nada ao Legado: Memórias de Lyon e o Valor do Encontro Humano

Foi o último walking tour em Lyon que realizei ao público aberto antes da nossa ida aos Estados Unidos em julho. Foi emocionante, pois centenas de memórias vieram à minha mente. Há 7 anos não existia nenhum projeto. Era o início de tudo.

Tudo começou com uma pessoa, depois um grupo, depois mais grupos, depois uma plataforma que anunciava os nossos projetos. Tudo começou a crescer sem marketing, sem estratégia, sem desejos megalomaníacos.

Quando vimos, gente começou a me ligar. Pessoas que estavam na cidade, estudantes que estavam apenas passando por Lyon. Quando percebi, estava diante de embaixadores que queriam que eu contasse a história de Lyon, a história da Igreja, a história de poder que fez da França um dos países mais seculares do mundo.

Quando percebi, o grupo do conhecidíssimo Erasmus me chamou para falar a mais de 30 estudantes por horas e horas. Quando me dei conta, líderes de igrejas me descobriram e queriam saber como o Evangelho de João chegou no segundo século em Lyon, a história do Império Romano, qual a relação da igreja orgânica — sem prédio e sem atas — de Lyon com as igrejas da Ásia Menor do livro do Apocalipse.

E, mais ainda, quando percebi que um dia estava diante de um dos bispos luteranos da Malásia, que veio à Lyon para me conhecer e ouvir muitas destas histórias, entendi como a simplicidade pode desconcertar em um mundo que mede tudo por fama, popularidade e status. O bispo me disse: “Deveria ser sempre assim. Perdemos a essência.” Em Lyon, havia uma igreja sem liderança hierárquica formal, mas plenamente funcional, com uma espiritualidade horizontal, que nunca buscou glamour, aplausos ou sucesso — e que, se existissem há quase 2000 anos, jamais teria se preocupado com likes no Facebook ou seguidores no Instagram.

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Eram gente simples que foram martirizados em nome da fé e da coragem que ecoavam e vinham da Ásia Menor. Gente que também tinha ouvido de outros nomes de mártires do segundo século como Policarpo em Esmirna ou Antipas em Pérgamo no final do primeiro século.

O grupo era multicultural da manhã de ontem.

A audiência tinha ateus, agnósticos, alguns — talvez um ou dois no máximo — cristãos.

Mas isso nunca importou, como nunca importou nestes 7 anos de projetos. Todos foram e ainda são bem-vindos e participam com respeito dos mais de 100 eventos que organizamos por ano.

No meu coração, a gratidão.

No meu coração, a alegria de saber que do “nada” hoje se torna um legado que seguirá.

Em julho partimos.

Conquanto ainda temos alguns meses, alguns dos projetos, como o meu tour histórico, não estão mais disponíveis ao público, pois ainda tenho 4 ou 5 grupos que estão vindo dos Estados Unidos e da Europa e que me ouvirão. Mas, nada público.

E o que isso tem a ver com a reflexão de hoje?

Num mundo de tanto ruído, de tanta busca por aplauso e de tantos projetos megalomaníacos, a gente esquece que o simples é o que guardamos no coração — e que fica agasalhado para a eternidade.

Num mundo em que queremos verificar de maneira quase obsessiva quantos seguidores amealhamos nas redes sociais, esquecemos que cada encontro humano, um de cada vez, é o que traz significado. Traz cheiro. Traz a capacidade de saber nome, sobrenome, cor dos olhos, gostos.

Num mundo em que tudo parece ser rápido demais, e somos incapazes de assistir a um vídeo de mais de um minuto — porque o que chama atenção é o story de 20 segundos — um walking tour de três ou quatro horas parece algo quase alienígena.

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Mas mesmo assim, o encontro humano continua sendo um convite para salvar a humanidade do cibernético e do robótico.

A história humana continua sendo a história de cada um de nós.

A gente aprende.
A gente reflete.
A gente é provocado a não repetir os mesmos erros.

E, quem sabe, o convite é nos tornarmos seres humanos um pouco melhores nos nossos próprios contextos.

Até a próxima.

Fábio
Collonges-au-Mont-d’Or

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Respostas de 4

  1. Fábião, sou grato a Deus por sua vida, por ter tido a inenarrável oportunidade de ter feito esse tour com vc (em português), ter entendido que os cristãos buscavam pessoas vivas que tiveram contato com Jesus e seus discípulos, e que seguiam a fé de coração e alma. Que Deus continue guardando vc e sua família e que vcs sejam ainda mais felizes nessa nova etapa e desafios.
    “Eis que Ele vem com as nuvens, e TODO olho o verá……” Apocalipse 1:7

    1. Obrigado, Elton.
      Foi uma alegria indizível ter recebido você e a Leo em Lyon.
      Muito obrigado por tanto carinho e pela amizade.
      Nos vemos em breve. Em julho, estaremos todos em São Paulo.
      Quero muito dar um abraço muito apertado em você e na Leo.
      Um beijo grande a vocês dois.
      Fábio

  2. Meu Querido Mano Fabão…

    Que alegria ler a sua coluna e nela perceber os fechamentos cíclicos, e inevitavelmente isso nos conduz a fazermos analises quantitativos na linha do tempo e do espaço; E sou invadido pelas lembranças de Barcelona, de Tarragona e da Galicia, quando tudo começou de forma despretenciosa mas muito responsável com o Evangelho de Cristo e o nosso Sarau Filosófico virou um grupo que virou uma reunião periódica e que virou um hospital de almas e que firam curadas e quando vimos o ciclo encerrou-se e todas estas pessoas que foram curadas, partiram para os seus países com o propósito de curar outras pessoas e o grupo disseminou-se para a Italia, Japão, Mexico, Brasil, Suécia, Colômbia, Argentina, Paquistão, França e etc… E nesta dinâmica ora narrada, fica muito claro e de forma nítida a materialização do IDE e fazei discípulos por tida a Judéia, Samaria e até os confins da terra.
    Saudades destes tempos.

    Fraterno Abraço meu Brother Fábio, e que o Eterno continue te usando, ora como bússola, outras como porto seguro, outras como farol, outras como hospital, e outras como combustível e plataforma de lançamentos, rs…
    Feliz, prospero e abundante novos tempos pra Vc, pra Johnna e pras crianças.
    Bjão no seu coração, desde Florianópolis-SC – Brazil.

    1. Meu querido amigo Edson,
      Que mensagem linda e emocionante. A tua descrição me faz viajar para um tempo tão agradável e me traz tantas memórias.
      Lindos lugares: Tarragona, Galícia e Barcelona.
      Obrigado por tanto carinho.
      Você foi a última pessoa que me abraçou em Barcelona, antes de ir ao aeroporto.
      Eu me lembro até hoje da quantidade de açúcar que você colocou no teu chá rssrsr. Aliás, “que hiciste ayer?” srsrrs
      Beijão, meu querido. Te amo, brother.
      Um forte abraço.
      Fábio

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