Meus amigos queridos, bom dia!
Você já ouviu falar da técnica japonesa chamada Kintsugi (ou Kintsukuroi)?
Pois bem, ela significa literalmente “união com ouro” ou “reparar com ouro”. Aliás, o kanji de “ouro” está presente na palavra 金継ぎ (kintsugi).
Olha só: a idéia por trás dessa cultura é que, quando algo de cerâmica se quebra, nós não precisamos esconder as rachaduras. Pelo contrário, devemos preenchê-las com uma pasta feita com pó de ouro, destacando as falhas sem escondê-las. Assim, a parte quebrada passa a fazer parte da história e da beleza do objeto transformado.
Eu acho isso fascinante!
E o que isso tem a ver com você, comigo e com a coluna de Reflexões e Espiritualidade do meu amigo Luiz Andreoli?
Eu te explico.
Há algumas semanas, voltei da Itália e comprei uma cafeteira italiana de um só espresso, que eu procurava há dois anos. Não queria comprar na França — queria uma de uma marca específica, e que fosse comprada na Itália. Finalmente consegui: conciliei a viagem de trabalho e dei uma escapada até o centro de Florença para comprar a tradicional moka. Eu estava nas nuvens, fazendo o meu café todas as manhãs — um espresso que se tornou um pequeno ritual de pausa e reflexão antes da imensidão de atividades diárias que eu e a Johnna temos em Lyon.
Mas, certo dia, adivinha?
Esqueci de colocar água!
Quando percebi que o café não vinha, que não ouvia aquele barulho maravilhoso da água fervendo, nem sentia o cheiro do café que sempre me transporta às minhas lembranças mais doces e distantes da infância com os meus avós italianos no Brasil, vi que a haste da cafeteira havia derretido com o calor.
Era apenas um objeto, é verdade. Mas fiquei triste.
E então aconteceu algo curioso.
A Sophia, que está estudando japonês na escola e aprendendo os kanjis, justamente naquela semana estava estudando o kanji 金 (kin) — o mesmo da palavra kintsugi.
E a Júlia chegou para mim e disse:
“Papai, assim somos nós. Eu vou colar a haste pra você, e você vai ter uma linda lembrança. Vai funcionar?”
Elas nem sabiam o que era o conceito japonês — mas quando percebi, já estava lá a Sophia colando a haste da minha moka!
O resultado?
Minha cafeteira está consertada, e todas as manhãs eu tomo um cafezinho delicioso.
E mais ainda, ela me lembra de algo profundo: todos nós somos seres humanos “quebrados” de alguma forma.
Como diz o meu querido colega de equipe Ken, que trabalha com tantos grupos de pessoas cheias de traumas, todos nós carregamos as nossas dores e idiossincrasias. Nós também somos seres humanos “quebrados”. No entanto, cada um de nós, todos nós possuímos também um valor inegável e uma beleza única, irrepetível!
Carregamos as nossas marcas no chão da história — com alegrias, imperfeições, erros e acertos — que nos dão experiências boas (e outras nem tanto), mas que nos oferecem sempre a oportunidade de nos tornarmos melhores seres humanos.
Fábio
Collonges au Mont D’Or
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