O Natal que Acontece no Caminho: Quando Servir é a Linguagem

Estamos chegando ao final do ano.

Acabo de retornar do Brasil e, depois de uma longa jornada de São Paulo a Roma, com troca de avião em Roma para Genebra, a última parte do trajeto foi feita de trem, de Genebra a Lyon. Dever cumprido. Sim… e ainda não. Pois, em menos de doze horas, eu já estava de pé para ajudar a Johnna no encerramento das nossas atividades em Lyon — a nossa confraternização de fim de ano!

O cansaço e o possível jet lag foram rapidamente colocados de lado quando comecei a ver as pessoas chegando, uma a uma. Quando me dei conta, já havia servido cerca de cinquenta cafés, conversado com muitas pessoas e, com uma alegria enorme, peguei o violão para tocar as canções natalinas. Para a minha surpresa e emoção, minha filhinha Julia de 8 anos se juntou a Johnna, e a todos nós.

Aliás, foi a primeira vez que, além da confraternização de final de ano, foi realizada paralelamente, no mesmo espaço, um pequeno Mercado de Natal para levantar fundos para crianças do Togo. Uma artista e artesã togolesa esteve presente, trazendo ainda mais sentido de solidariedade e generosidade àquele encontro.

São sete anos de projeto. Mais de cem atividades culturais por ano, além de iniciativas como Lectio Divina, retiros de espiritualidade e história da Igreja, projetos de ajuda humanitária e apoio a refugiados em parceria com ONGs locais. Pessoas de mais de oitenta nacionalidades, dezenas de parceiros na cidade. Chegar ao fim de mais um ano traz, antes de tudo, um profundo sentimento de gratidão — e muito aprendizado.

Às vezes, ouço nomes de países que nunca tinha ouvido antes. Os grupos que entram e saem dos nossos encontros vão desde pessoas com doutorado, mestrado e uma longa trajetória acadêmica até outras que estão chegando agora, não falam francês, mal falam inglês e carregam o status de refugiados. As diferenças são enormes: cristãos, muçulmanos, hindus, ateus e agnósticos sentados lado a lado; franceses marcados pela laicidade, fruto de um corte histórico entre a Igreja e o Estado desde a Revolução Francesa. Ainda assim, a humanidade acaba se tornando o chão comum da existência deste projeto.

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Com frequência, escuto pessoas de diferentes nacionalidades e histórias dizendo como se sentem acolhidas nesses encontros onde não são julgadas pela aparência, classe social ou de qualquer outra natureza; todas são recebidas com amor; muitas nos escrevem e nos dizem como conseguiram sair de uma dificuldade de socialização, de uma fase de depressão; ou, como alguém me disse recentemente, como esses momentos têm trazido uma paz estranha e silenciosa para lidar com a ausência de alguém muito querido que faleceu há pouco tempo.

Isto posto, neste Natal, acho extraordinário lembrar que os chamados reis magos atravessaram o deserto e a Pérsia até Belém sem GPS ou Waze. E, mais ainda, muitos textos indicam que eram seguidores do zoroastrismo. Talvez isso nem seja o mais importante. O que importa é que eles chegaram. Enquanto isso, os religiosos que estavam a poucos passos de Belém — com as Escrituras na ponta da língua, citando os profetas de memória — não deram sequer meio passo para ir ao encontro daquele que era a promessa tão bem conhecida nos círculos acadêmicos e religiosos. De modo semelhante, Johnna e eu ficamos muitas vezes surpresos ao ouvir como essas centenas de pessoas — hoje, cerca de quatrocentas por semana, entre o café e as outras atividades — descobriram os projetos sem nenhum “GPS ou Waze”. Neste Natal, penso também em Jesus e em seus pais fugindo de Belém para o Egito como refugiados. E, enquanto convivemos com pessoas de tantas culturas, histórias e experiências distintas, seguimos fascinados ao perceber como a fraternidade, a solidariedade e o amor conseguem, tantas vezes, ocupar o lugar das diferenças. Espero, de todo o coração, que nas próximas semanas você tenha muitos encontros em que a generosidade, a solidariedade, a inclusão e a compaixão encontrem espaço na sua jornada. Cada um de nós vive em contextos muito diferentes, mas o espírito do Natal é o mesmo — e pode ser cultivado mesmo quando o cenário parece marcado por antagonismo, polarização ou secularismo.

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Talvez tudo comece a partir de você e de mim. Você pode se surpreender com o que o poder do amor e do serviço é capaz de fazer quando nos aproximamos do próximo. Como a Johnna escreveu recentemente: como posso amar o meu próximo se eu não o conheço?

Vamos tentar?

Fábio

Collonges au Mont D’Or

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