É hora de Copa do Mundo. O Brasil para.
As ruas ficam vazias. Empresas fazem uma pausa de duas horas para assistir à partida antes de voltarem ao trabalho. Reuniões são canceladas ou, no mínimo, reagendadas. Brasil e futebol se confundem. Famílias se reúnem para ver os jogos. Igrejas abrem suas portas e convidam os jovens para uma tarde especial. Amigos se encontram em casas ou bares.
Eu nunca vi nada igual. Nenhum país tem a força da cultura do futebol como o Brasil.
Hoje moro na França. Embora os franceses tenham uma excelente seleção e tenham feito ótimas campanhas nos últimos anos, às vezes tenho a impressão de que o Mundial está acontecendo em outro planeta. Se eu não ligasse a televisão, talvez nem percebesse.
Dito isso, o fato de nossa família ser tão híbrida torna tudo ainda mais interessante.

Começando pelas minhas raízes portuguesas e italianas: sou apaixonado pela cultura italiana, pela comida italiana e, além disso, sou palmeirense roxo. Cresci acompanhando tudo do antigo Palestra Itália. Com tristeza e um pouco de saudosismo, a Itália não está no Mundial. Mas, pelo menos, não preciso me preocupar em dividir minha torcida.
Só que os desafios não param por aí.
Johnna é americana, viveu na Bélgica, tem um carinho enorme pelo Japão, onde morou em duas ocasiões, e atualmente vivemos na França, país cujo idioma favorito dela é o francês.


Eu, por outro lado, vivi no Canadá, país pelo qual também tenho enorme carinho. Morei na Espanha, onde me tornei cidadão espanhol. Vivi nos Estados Unidos, no Japão e agora na França.
Uma de nossas filhas nasceu nos Estados Unidos. A outra nasceu no Japão. Ambas estão crescendo na França.
Cada um desses países ocupa um lugar especial em nossa história. E observar a dinâmica familiar durante uma Copa do Mundo é algo fascinante.
No entanto, sem puxar sardinha — como dizemos em português — minha alegria é que tomamos uma decisão em família: vamos torcer pelo Brasil mais do que por qualquer outra seleção.
A primeira a decretar isso foi Sophia.


— Papai, compra camisas do Brasil!
Fui atrás delas e comprei.
Johnna imediatamente vestiu a camisa. Quando perguntaram em um dos nossos grupos por quem ela torceria, respondeu sem hesitar:
— Brasil!
Sophia então perguntou:
— Mamãe, e os Estados Unidos?
Johnna respondeu:
— Até esqueci!
Vai Brasil!


Julia também vestiu sua camisa do Brasil e foi para a escola. Voltou para casa contando que todos gostaram da camisa e que, quando a professora perguntou quem gostava do Brasil, a sala inteira fez uma festa.
O Mundial começou.
Os jogos, para o nosso fuso horário, acontecem à meia-noite, às três da manhã, em horários absolutamente impróprios para qualquer pessoa sensata. Mesmo assim, Sophia e Julia quiseram ficar acordadas comigo para assistir ao início da partida.
Sophia conseguiu.
Estava exausta.
— Filhinha, vai descansar.
Mas ela resistiu bravamente. Assistimos juntos. Veio o gol do Brasil. Que susto!
Logo depois ela perguntou pelo Endrick, que jogava no Palmeiras e que, teoricamente, é nosso “vizinho” aqui na região de Lyon.
Mas nada de Endrick entrar.
Pelo visto, não somos os únicos pedindo.
Há duas coisas nessa história que eu acho maravilhosas.
A primeira é que, independentemente do desempenho do Brasil, de Portugal, dos Estados Unidos, da Espanha, da Bélgica, do Japão ou do Canadá — acho que consegui cobrir todos os países com os quais nossa família se identifica —, o mais bonito é ver minhas filhas conversando comigo sobre a cultura brasileira. Falamos de futebol, do Neymar, das chuteiras coloridas, dos jogadores e das histórias por trás de tudo isso.


E passamos tempo juntos.
Conversando.
Conversando.
E conversando mais um pouco.
Não há nada melhor no mundo do que passar tempo com os filhos.
A segunda razão é que, no dia 4 de julho, embarcaremos para o Brasil.
As meninas terão a oportunidade única de viver a experiência de estar no país do futebol. Verão de perto uma cultura fascinante, a festa, a alegria e uma paixão coletiva que eu mesmo não experimento há mais de vinte anos.
Espero que o Brasil tenha força suficiente para continuar avançando até lá.
Mas, aconteça o que acontecer, já valeu a pena.
Porque, no final das contas, algumas das melhores memórias da vida acontecem assim: sentados no sofá, usando uma camisa amarela, assistindo futebol com aqueles que amamos.
No mais…
Vamoooo Brasil!!!
Fábio
Collonges au Mont D’Or.
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