A Volta do Arroz com Feijão

Basta sentir o cheiro do alho dourando na panela, ouvir o arroz estalar na água fervente, encontrar o feijão que passou horas no fogo, a carne assando lentamente, a salada recém-colhida, que entendemos uma velha verdade: há sabores que nenhum banquete consegue substituir.
Então, aqui estamos!
Em casa!
O futebol brasileiro está voltando.
Depois da Copa do Mundo, que não agradou todo mundo, todos nós regressamos ao nosso arroz com feijão.
E, curiosamente, isso traz um certo conforto.
A Copa termina deixando lições.
Caiu muito daquilo que passou anos sendo vendido como modernidade: o futebol da encenação permanente, dos mergulhos teatrais, das reclamações coreografadas, das confusões coletivas cercando árbitros, dos jogadores que pareciam disputar um Oscar antes de disputar uma bola.
Perdeu espaço o talento desperdiçado em provocações, em pequenas trapaças e em intermináveis guerras psicológicas.
Nenhum campeão vence apenas representando, em algum momento, a bola exige talento e não faz acordos com “pernas de pau”.
Ficou evidente que futebol é coletivo e só ganha que sabe jogar entrosado, quem leva a sério e nunca a violência e improvisação.
Trabalho, treino, dedicação, derrota discurso. Planejamento é mais forte do que marketing.
Talvez essa tenha sido a maior derrota brasileira.
O Brasil continua produzindo jogadores extraordinários.
Formando talentos capazes de encantar qualquer estádio do planeta.
O que falta há muito tempo, não nasce nas categorias de base.
Está na falta de administração, de direção, de projeto, à longo, médio e curto espaço de tempo e na falta de comprometimento.
E assim voltamos para casa.
Voltamos para o Campeonato Brasileiro.
Voltamos para aquele campeonato que reclama do gramado na segunda-feira, critica o treinador na terça, demite na quarta, anuncia reforços na quinta, troca de presidente na sexta e lota o estádio no domingo como se nada tivesse acontecido.

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É um campeonato contraditório.
Nele convivem centros de treinamento modernos e salários atrasados.
Clubes que revelam craques para o mundo inteiro, mas atrasam o pagamento do roupeiro.
Instituições centenárias convivendo com bloqueios judiciais e financeiros.
Times tradicionais impedidos de registrar atletas por punições impostas pela FIFA, consequência de dívidas.
Dirigentes que assinam contratos milionários durante o dia e, à noite, procuram explicações para folhas salariais que não conseguem honrar.
Negócios pouco transparentes, comissões que surgem do nada, empresários que entram pela porta da frente e saem pelos corredores dos fundos.
Tudo isso alimenta uma cultura que insiste em tratar o improviso como tática e o “jeitinho” como método e arte.
Parece que ainda existem dirigentes que confundem clube de futebol com propriedade particular.
Como se a instituição lhes pertencesse.
Pertence aos torcedores.
Pertence à história. Ao manto do Clube.
Pertence aos que construíram arquibancadas muito antes de existirem camarotes.
E no domingo, a bola rola.


E é justamente aí que mora o inexplicável encanto do futebol brasileiro.
Porque o torcedor conhece todos os defeitos da própria casa.
Sabe onde o telhado pinga.
Conhece a torneira que precisa de conserto.
Reclama da pintura descascada.
Promete que nunca mais volta.
Mas basta sentir novamente o cheiro do café passando na cozinha para perceber que continua sendo o seu lugar.
É assim com o Campeonato Brasileiro.
Ele pode ser desorganizado.
Pode ser injusto.
Pode ser caótico.
Pode provocar infartos, discussões familiares, memes e noites mal dormidas.
Ainda assim, é impossível não voltar.
Talvez porque ali esteja algo que nenhuma competição internacional consegue fabricar.
Pertencimento.
Na Copa torcemos pelo país.
No Brasileiro torcemos pela nossa memória.
Pelo pai que nos levou ao estádio.
Pela avó que costurava a bandeira.
Pela rua onde jogávamos bola.
Pelo rádio ligado na varanda.
Pelo vendedor de amendoim.

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Pelo vizinho supersticioso.
Pelo goleiro que conhecemos desde menino.
Pelo atacante que chamamos pelo apelido.
O Campeonato Brasileiro não vende glamour.
Entrega identidade.
É comida de panela.
Não impressiona turistas.
Alimenta quem mora na casa.
Nelson Rodrigues dizia que “o futebol é a pátria de chuteiras”. Talvez hoje seja também a nossa cozinha de chuteiras: o lugar onde, apesar das rachaduras nas paredes, continuamos encontrando aquilo que nos reúne à mesa.
O grande desafio não é apenas fazer a bola voltar a rolar.
É limpar a cozinha.
Organizar a despensa.
Pagar quem trabalhou.
Fechar as torneiras do desperdício.
Abrir as janelas da transparência.
Administrar clubes como instituições permanentes, e não como campanhas eleitorais.
Porque nenhum prato resiste quando a cozinha vive em guerra.
E nenhum campeonato alcançará toda a sua grandeza enquanto a administração continuar jogando contra o próprio futebol.
Ainda assim…
Quando o juiz apitar neste fim de semana, milhões de brasileiros estarão diante da televisão, nas Arenas, no rádio ou no celular, na padaria saboreando um bom pão de queijo.
Não porque tudo esteja certo.
Mas porque algumas paixões não esperam pela perfeição.
Esperam apenas pelo apito inicial.
E talvez seja justamente essa a maior virtude do futebol brasileiro.
Mesmo quando nos decepcionamos , ele continua encontrando um jeito de nos chamar para jantar.
E você já reservou sua cadeira?
Senta aqui, vamos torcer juntos!

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