Ela sorria e os cabelos voavam com a brisa leve do fim de tarde.
Na pele dourada, delicadas pintas surgiam na festa das sardas e dos novos tempos.
Pisava descalça firme terreno que desconhecia.
Segura, rodopiava o vestido branco, mãos em conchinhas na boca a tampar-lhe o sorriso.
Ela cintilava. Repleta de si e de anseios.
Largou a sacola que lhe pesava os ombros, ajeitou os cabelos em tranças, sacolejou a areia e os destroços da última tempestade e saiu dançando em passos largos.
Ela não tinha pressa.
Experimentava os sabores dos novos frutos, saltava com graça as poças d’água, outrora de choros escondidos, cintilava na multidão: sua voz, seu peito em couraça, seu voo desbravando a própria vida.
Adeus menina dos brejos!
Ela sorriu, desta vez, descontroladamente, ao ver-se solta e preenchida. Colorida e feliz,sem ninguém a rodear-lhe.
Estava só. Mas, inteira.
Atravessou os corredores da viela, buscou a fresta primeira que dava pro mar e ali permaneceu. Pés descalços, a Menina brincava: mãos agarrando as laterais do vestido branco, os longos cabelos esvoaçantes dançavam em frenesi.
Ela tinha para si o discurso pronto. A boa nova salteada de água marinha e a exuberante alegria de quem acordou-se.
Tratou de limpar os grãos finos dos pés, enfeitou as longas madeixas ruivas com acácias e jasmins e subiu a escadaria que a levava de volta às ruas da velha e doce cidade.
Seu coração batia descompassado como se quisesse saltar -lhe do peito.
Ela sabia que sua vida mudara. Que os desenhos, antes infantis, eram agora o rascunho de um projeto de vida, em cores, nanquim, amor verdadeiro e esperanças.
Olhou-se no grande espelho que pendia atrás da porta e sorriu, reconhecendo-se, preenchida pelo inesquecível sabor de quem encontra a si em meio a multidões
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