A palavra que melhor define essa Copa do Mundo, é a Ousadia.
A Ousadia silenciosa de fazer diferente quando todos esperam mais do mesmo.
Toda Copa começa muito antes do apito inicial. Enquanto os torcedores contam os dias para a estréia, existe um pequeno grupo de pessoas que trabalha durante anos para transformar um sonho em realidade. Imagino que, quase uma década atrás, arquitetos, dirigentes, engenheiros, especialistas em logística, prefeitos, polícia, meteorologistas, empresários, técnicos na malha viária, diplomatas, artistas, voluntários, escolas, especialistas em meio ambiente, técnicos em segurança, tecnologia e marketing, politicos e articulistas de geopolitica, tenham se reunido em torno de uma mesa para responder a uma pergunta simples, porém gigantesca: como reinventar a maior competição esportiva do planeta?
A resposta foi ousada.
Pela primeira vez, três nações dividiram a responsabilidade de sediar uma Copa do Mundo. Canadá, Estados Unidos e México abriram fronteiras, redobraram a segurança, vigiaram aeroportos e estádios de futebol, cinemas, teatros, praças e ficaram atentos e vigilantes quanto a vida noturna de suas cidades sedes, reforçaram a hotelaria e hospedarias e espaços de alimentação, pontos turísticos para receber milhões de pessoas vindas dos quatro cantos do planeta.

Idiomas diferentes, religiões distintas, músicas, trajes típicos, costumes, sabores, bandeiras e histórias passaram a conviver durante algumas semanas sob um idioma comum: o Futebol.
Conseguiram até reunir no mesmo espaço dois países em guerra sangrenta, e sem possibilidade de acordo Pacífico. .. Mas por breves momentos, houve paz.
Num tempo em que o mundo insisti em erguer muros, o esporte voltou a lembrar que ainda é capaz de construir pontes.
Talvez essa tenha sido a primeira grande vitória desta Copa.
A segunda aconteceu dentro das quatro linhas.
Entraram em campo seleções acostumadas ao peso da tradição e outras que carregavam apenas a leveza do sonho.
E foi justamente aí que a ousadia encontrou seu espaço.
A ousadia apareceu nas equipes, atletas e treinadores que desafiaram os favoritos sem medo da competição em pleno campo.
Nos jovens que vestiram camisas históricas como se fosse realmente um manto, para elevar o seu país, com dignidade.
Ousadia dos idolos em sua “last dance” se recusando aceitar que o tempo se encerrou realmente no apito final.
Entre esses heróis está o carismático goleiro Vozinha, aos quarenta anos, símbolo do pequeno país de Cabo Verde, nos ensinou que a persistência anda de braços dados com a coragem.
Ousadia no espírito de tantos atletas que chegaram à Copa sem status das grandes estrelas, mas conquistaram o respeito do mundo inteiro.
Na Ousadia pela entrega e pela dignidade dos que não se apequenaram na defesa por seus países.
Na Ousadia, quando a bola rolou, e mostraram ao planeta que o futebol tem espaço para o talento, para a habilidade e para a disputa com garra e disposição.
Como lutaram!
Como reverteram placares improváveis!
Como resistiram à pressão!


Como choraram nas vitórias e também nas derrotas!
Nos emocionamos nas despedidas de guerreiros.
Assistimos ao nascimento de novos ídolos.
Fomos surpreendidos pelo vigor físico e a garra.
E percebemos, mais uma vez, que nenhuma camisa vence uma partida somente pelo peso da própria história.
Existe um velho ditado que diz que o melhor da festa é esperar pela festa.
E nós, brasileiros, esperamos muito.
Esperamos por uma Seleção que nos devolvesse o encantamento.
Esperamos reconhecer aquele futebol criativo que um dia fez o mundo parar para assistir Pelé, Garrincha, Tostão, Rivellino, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldo e Ronaldinho.
Esperamos encontrar novamente a alegria que transformou o futebol brasileiro em patrimônio da humanidade.
A expectativa era enorme.
A realidade, nem tanto.
Ao término da competição, permanece uma certeza que vai muito além da troca de treinador.
O Brasil precisa reencontrar sua identidade.
Precisa recuperar a ousadia que sempre o distinguiu das demais seleções.
Porque nunca fomos respeitados apenas pelos títulos.
Fomos admirados porque ousávamos.
Ousávamos driblar quando todos tocavam para o lado.
Ousávamos atacar quando o empate parecia suficiente.


Ousávamos acreditar na beleza do futebol quando o resultado ainda não dominava completamente o espetáculo.
Talvez seja justamente essa a maior lição desta Copa.
A ousadia continua recompensando aqueles que têm coragem de pensar diferente.
Ela não pertence apenas aos organizadores que imaginaram uma Copa dividida entre três países.
Nem somente aos jogadores que desafiaram prognósticos e escreveram páginas inesquecíveis.
Ela pertence também aos povos que continuam acreditando que o esporte pode aproximar culturas, superar diferenças e oferecer esperança em tempos cada vez mais divididos.
Agora conheceremos quem levantará a taça.
O campeão entrará para a história.
Mas, para mim, a verdadeira vencedora desta Copa já tem nome.
Chama-se Ousadia.
E talvez seja exatamente dela que o futebol brasileiro mais precise daqui para frente.
Não da ousadia irresponsável.
Mas daquela coragem que um dia vestiu a camisa amarela, encantou o mundo e fez do Brasil muito mais do que um campeão.
Fez do Brasil uma referência eterna da arte de jogar futebol.
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