Existem domingos que não são domingos.
São rituais, que veste a cidade, comove o peito, reúne a família. Bons são aqueles que trazem paixão e fé.
Um bom exemplo é o Domingo de Páscoa!
A cidade desacelera, o cheiro do almoço invade as ruas, e entre um gole de vinho e uma colher de arroz, alguém pergunta: “Vai ter jogo hoje?”.
Porque no Brasil, até a Páscoa precisa dividir espaço com a bola.
E talvez isso não seja um desvio, mas algo bem maior, talvez seja uma confissão.

A Páscoa, dizem, é sobre Renascimento. Sobre dor, sacrifício e, sobretudo, esperança.
O futebol… bem, o futebol também. Só que com chuteiras, caneleiras e muita vontade de se provar.
Já houve um tempo em que o futebol era mais próximo da fé do que do espetáculo. Um tempo em que o torcedor não era cliente, era devoto. E o estádio não era Arena Gourmet — era Templo.
Ali, cada gol tinha algo de milagre, cada derrota tinha gosto de sexta-feira santa.
Nelson Rodrigues já dizia que “o futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes”. E talvez ele estivesse sendo apenas um tanto brando.
Porque há algo de profundamente humano, e quase religioso, na maneira como esperamos, sofremos e acreditamos.
Quem nunca viu um pai levantar o filho pequeno e apontar para o campo como se dissesse: “olha, os jogadores que você vê naTV. “Eles são de verdade!” Quem nunca fez uma promessa silenciosa no último minuto do jogo, negociando com o céu como se estivesse diante de um altar?
Eu mesma conheço gente, que vai até Aparecida por um jogo de futebol bem jogado, que valha Taça em fim de Campeonato.
Há, sim, um Cristo em cada arquibancada, não o da redenção divina, mas o da dor coletiva.
O torcedor aprende cedo a carregar sua cruz, um time que não ganha, um gol perdido, uma arbitragem que parece ter sido escrita no Apocalipse.
E ainda assim… ele volta.
Volta como quem acredita na ressurreição.
O futebol brasileiro já teve seus domingos de glória, aqueles em que o país inteiro parecia respirar no mesmo compasso.


Lembranças que resistem como evangelhos apócrifos contados em mesa de bar, o drible que humilhou a lógica, o gol que desafiou a física, o time que jogava como se tivesse sido tocado por algo divino.
Pelé não era apenas um jogador, era uma epifania. Garrincha, um herege alegre, que desmontava defesas como quem desafia a ordem natural das coisas. E o futebol, naquele tempo, parecia mais próximo do milagre do que do marketing.
Hoje, algo mudou.
Os estádios ganharam telões, mas perderam silêncio. Os jogadores ganharam contratos, mas perderam mistério.
O torcedor ganhou conforto, mas perdeu pertencimento.
Mesmo o gol, antes um grito eufórico e momentâneo, hoje precisa do aval, ou seja uma permissão do VAR. Talvez estejamos vivendo uma espécie de sábado de aleluia permanente, aquele dia estranho entre a dor e a promessa, em que ninguém sabe ao certo se a ressurreição ainda virá.
Mas ela vem.
Vem num garoto da base que entra sem medo. Vem num gol improvável aos 48 do segundo tempo. Vem naquele instante raro em que o futebol, cansado de ser negócio, decide ser poesia outra vez.
Porque, no fundo, o futebol ainda é uma narrativa de redenção. De quedas e retornos. De ídolos crucificados pela imprensa que, semanas depois, ressuscitam nos pés de um chute certeiro.
E o torcedor? Ah, o torcedor é o mais fiel dos apóstolos.


Ele nega, ele xinga, ele abandona — mas volta.
Sempre volta. E continua no mesmo amor de antes!
Talvez porque, assim como na Páscoa, ele precise acreditar que a dor não é o fim.
Que depois da derrota existe algo mais. Que o domingo ainda pode chegar.
E quando chega, quando o gol finalmente acontece, há um segundo de eternidade.
Um grito que não é só grito.
É oração.
De puro agradecimento…
Feliz Páscoa à Todos os Queridos Leitores!
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