Não escondo de ninguém meu amor pelo futebol, parece bem normal, para vocês meus leitores assíduos, afinal filha de peixe, peixinho é!
Me lembro dos finais de semana, onde seguia meu pai pelos estádios de futebol e muitas vezes, fui também com meu querido avô, que amava futebol, como se dele, precisasse respirar.
Meu avô Seu Antônio, fora Guarda Civil de São Paulo e também caminhoneiro pelas estradas de São Paulo e todo o interior do Estado.
Um homenzarrao de lindos olhos bem azuis, que era um avô carinhoso e não falo isso por falar, mas amava meu avô e sei que ele também, afinal eu era sua única neta.
Em certa ocasião, estávamos no Estádio do Morumbi, (hoje MorumBis), meu pai já paramentado, e entre as linhas do gramado, se preparava para o início da partida.
Uma última olhada para os assistentes, (naquele tempo não havia VAR), um olhar rápido para o gramado, para o público e de mão erguida e apito na boca, um aviso de um minuto de silêncio, que foi rigorosamente cumprido, conforme as leis da Arbitragem.
Enquanto isso, eu e meu avô, na arquibancada, atentos a cada detalhe querendo ver tudo e gravar na memória. E como gravamos!
Num desses lances de jogo, um torcedor, bem ao nosso lado, manda lembranças “calorosas e afetivas à mãe do Juiz”, depois de alguns segundos vejo meu avô, se erguer nos seus mais de 1.90 m, e um tanto incomodado pelo “elogio” do desconhecido.

Como ousa? Afinal, seus xingos atingiam seu filho, Dulcidio e por consequência a minha avó, que devia estar vendo tudo, grudada na televisão.
Vou preservar os detalhes, mas o quebra pau, foi memorável, e tanto que ainda posso contar para vocês, e rir de tudo aquilo que vi com esses olhos que a terra há de comer! Pura Verdade!
Mas voltando aos nossos dias, nem o Estádio é o mesmo e nem a grama. Aquela grama que já viu a bola correr leve, quase obediente, como se soubesse que ali não se joga apenas futebol: se inventa beleza. Era assim quando Pelé tocava na bola como quem escrevia poesia com os pés. Era assim quando Garrincha entortava o destino dos zagueiros, não por força, mas por alegria. Era assim com Zico, Romário, Ronaldo Nazário, nomes que não apenas venceram, mas ensinaram o mundo a olhar, com paixão pelo Esporte.
O futebol brasileiro foi idioma universal.
Não precisava de tradução.
Mas hoje, quando a bola rola, há um ruído estranho. Não vem das arquibancadas, vem de fora.
Vem das cifras, dos contratos, das vitrines europeias que transformaram o jogo em produto e o jogador em ativo negociável.
O talento ainda nasce aqui, nos mesmos campos de terra, nas mesmas periferias onde o sonho é mais resistente que a realidade. Mas ele parte cedo demais.
Vai embora antes de aprender a ser símbolo.
E nós pouco ou nada podemos fazer, nessa modernidade assustadora, por que em nome da segurança, da tecnologia, do conforto, da comodidade, pagamos cada vez mais caro, é difícil sair das Arenas, sem lembrancinhas, sem um adorno, sem um mimo, que custam os olhos da cara. Além é claro do ingresso que custa um rim, nessa altura bem judiado.
E nesse cenário surge Neymar.


Talento indiscutível, herdeiro natural de uma linhagem que encantou o mundo. Mas também símbolo de um tempo inquieto, onde genialidade e instabilidade caminham lado a lado.
Suas reações, por vezes explosivas, por vezes humanas demais, dizem tanto sobre ele quanto sobre o ambiente que o cerca.
Um ambiente que cobra resultados imediatos, que transforma erro em espetáculo, que exige maturidade de quem nunca teve tempo de amadurecer dentro do próprio país. Muito do “menino” Ney.
Neymar não é o problema. Ele é o sintoma.
Sintoma de um futebol que ainda produz craques, mas já não produz referências. Que revela talentos, mas não sustenta histórias. Que exporta jogadores antes de formar ídolos.
E, no fundo, talvez a crise do futebol brasileiro não seja apenas do futebol. Seja do Brasil.
Um país que já encantou o mundo com sua leveza, no jogo e na vida, mas que hoje parece carregar um peso constante. Um desencanto que atravessa o campo e chega às arquibancadas, às ruas, às conversas.
Porque o futebol nunca foi só futebol.
Sempre foi reflexo. E o reflexo atual incomoda.


Não pela falta de habilidade, essa ainda pulsa, mas pela ausência de alma coletiva. Aquela mesma que fazia um drible ser mais que um movimento: ser um ato de liberdade.
Talvez ainda haja tempo.
O talento continua nascendo onde sempre nasceu. A diferença é que agora ele precisa de algo que já tivemos e estamos esquecendo: Propósito.
Porque sem propósito, o futebol vira negócio.
Então o que penso e escrevo, é sobre um futebol rico de detalhes, de referências, de heróis sem capa e espada, mas com chuteiras e camisas verdes e amarelas, que se orgulhavam de defender, que não conquistavam a vaga por bate boca com o torcedor, mas por talento, dedicação, comprometimento e equilíbrio.
Obrigada e até breve!
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