O Enterro da Camisa 10

O Futebol Brasileiro padece, e morre discretamente, como morrem os velhos gênios: num canto, ignorado, enquanto a família discute herança.
Nesse nosso caso, a herança virou “modelo de jogo”, “intensidade”, “ocupação de espaço”, ” controle de carga”, termos que fariam um ponta-direita de antigamente pedir licença e ir embora no meio da palestra.
Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Pois bem: hoje cuspimos no nosso futebol com método, ciência e PowerPoint e toda a cibernética esportiva.
Houve um tempo, em que a arte, valorizava o espetáculo, e os passes eram “bailes sincronizados” e deveras ensaiado, em que a bola era um convite ao delírio. Garrincha entortava zagueiros como quem dobra jornal velho.
Não havia GPS, não havia mapa de calor, estatísticas que se acumulam (e mesmo assim são surpreendidas), antes havia o caos.
E o caos, no Brasil, sempre foi fértil.
Pelé não corria atrás do jogo: o jogo corria atrás dele. Zico pensava dois lances à frente.
Sócrates caminhava em campo como quem discute filosofia num bar e, de repente, enfiava uma bola que rasgava a realidade.
Hoje, o camisa 10 virou um equívoco tático.
Se ele prende a bola, é egoísta.
Se dribla, é irresponsável.
Se inventa, é indisciplinado.
Se acerta, é gênio
Se erra, é banco de reserva
Se mostra talento, é joia a ser negociada a bom preço!
O treinador um sobrevivente profissional, não quer gênios, necessita de operários obedientes, que cumpram à risca suas inúmeras táticas que não tem tempo de serem treinadas.
Até por que o técnico, desse nosso futebol, já começa a trabalhar com aviso prévio, e precisam acertar o time, “com os pneus rodando e o motor ligado”.
Se o assunto é  “recomposição”, parece uma aula de economia, comentando imposto de renda. Sem emoção!
O lateral não ataca, “projeta-se”.
O meia não cria, “executa”.
O atacante não improvisa, “finaliza dentro do protocolo”.
É o fim da malandragem, dos dribles que encantavam, da ginga, do molejo, do jogo coletivo que funcionava como orquestra bem afinada, tudo como virtude.
E o brasileiro, que sempre fez do improviso uma arte, agora pede desculpa por tentar.
Outro dia, vi um garoto dar um drible curto, desses que não servem para nada, mas dizem tudo. A torcida murmurou. O técnico gritou. No lance seguinte, ele tocou de lado. Apenas tocou. Como se quisesse se livrar da bola o mais rápido possível.
Disseram na transmissão que o jovem jogador, aprendeu. Será?
Na verdade aprendeu a não ser quem ele poderia ser.
E aí está o crime: não matamos apenas o futebol estamos assassinando a possibilidade.
Nem time, nem ideia, nem caráter, nem identidade.
Os jogadores são mais corredores de resistência,  velocistas, onde o calendário é insano, o jogo sem posicionamento, sem referências, são todos correndo, defendendo, atacando e se perdendo em ordens e sinais incompreensíveis e o  pensamento é curto.
Eu confesso, acreditei que os gramados de material sintético das Arenas modernas, fossem as vilãs de tantos atletas machucados, lesionados, fraturados, mas não é bem assim.
É fato que vai além das estatísticas, os atletas estão no seu maior esgotamento físico e mental, sob enorme pressão, e com suas participações em Campeonatos Internacionais comprometidos, exemplo a Copa do Mundo.
Se voltarmos no tempo…
Pelé não seria Rei, afinal o que encantou o mundo, foram seus dribles, visão de jogo, habilidade e domínio com a bola, gols que eram pinturas, escanteio bem batido, catimba e a equipe bem entrosada que se conhecia além do olhar.
Hoje a bola, antes amiga e colocada com talento dentro das redes, é tratada com desprezo, sem qualidade, sem fino trato, sem fazer dela uma parceira fiel e confidente .
O gol não parece ser mais o grande momento, não se elabora mais táticas, nem se gasta tempo em treinar, treinar, treinar….a bola e o gol são meros desconhecidos.
E o prazer de se aguardar a partida, foi superado pelo alívio de seu término, quando o juiz apita.
Precisamos pensar sobre isso!

Loading

Veja Também  VOCÊ SABE O NOME DO TÉCNICO DO SEU CLUBE?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Compartilhe esta notícia

Mais postagens