Comemorando meu aniversário na melhor companhia: a minha.
Você pode achar que isso tem a ver com solidão, isolamento, tristeza ou falta de amor. E longe de mim querer convencer alguém do contrário. Mas passar meu aniversário fazendo as minhas coisinhas foi um dos melhores presentes que me dei nesses 47 anos de vida.
Na verdade, o presente foi a minha companhia.
O dia começou devagar, exatamente como eu queria. Teve café na cama com direito a bolo, uma caminhada leve com meu marido, um momento de meditação e outro dedicado ao meu passatempo favorito: montar quebra-cabeças.
Depois veio a dúvida: saímos para almoçar ou vou para a cozinha?
Quando não sou obrigada, gosto muito de cozinhar. Então fui para a cozinha ao som de Shakira preparar minha versão despretensiosa de um comfort food clássico: estrogonofe de carne.
A proposta daquele dia era simples: fazer coisas que eu gosto. E depois do almoço chegou o meu momento.
Já comemorei aniversários em festas, festas-surpresa, viagens, hotéis, com amigos e familiares. Desta vez eu queria algo diferente. Algo que me reconectasse com o que mais importa: minha saúde mental.
Fazia tempo que eu não passeava sozinha, sem pressa, pelo shopping. Pode parecer besteira, mas é um programa de que gosto muito. Observar as pessoas, desejar coisas que sei que não posso comprar, organizar mentalmente aquelas que cabem no orçamento, entrar em lojas de departamento, experimentar roupas, tomar um café sem compromisso.
Mas antes havia um compromisso importante: recuperar a dignidade. Calma, eu explico. Desde o começo do ano estou fazendo as unhas em casa para economizar. Então ir ao salão virou um pequeno luxo. Um presente de aniversário.
Depois das unhas prontas, pedi um expresso e um cookie enquanto esperava o horário da massagem. Ao meu redor havia crianças correndo, casais conversando, amigos reunidos, cachorros passeando e todos os estímulos que um shopping consegue reunir.
Mas naquela pequena mesa aconteceu algo raro. Consegui ouvir o silêncio. Refleti sobre algumas coisas que venho aprendendo na terapia, tomei meu café sem pressa e sem precisar interagir com ninguém. Nem comigo mesma.
Com tempo sobrando, fui ao mercado. Sem lista. Sem necessidade. Só passeando pelos corredores e obedecendo aos desejos despertados pelas prateleiras organizadas. Dei voltas, fui e voltei algumas vezes, mesmo sem precisar comprar nada.
Depois voltei ao shopping para escolher meu presente. Tenho uma lista muito particular de coisas que compro quando quero gastar um dinheirinho comigo. Desta vez escolhi uma meia do Homem-Aranha.
Podem rir.
Mas ele continua sendo meu super-herói favorito. Um personagem meio atrapalhado, cheio de boas intenções e sempre tentando fazer o melhor que consegue. Além disso, gosto do fato de que ele pode ser representado por um homem adulto ou por um garoto que parece não ter nem 15 anos.
Talvez seja por isso que continue funcionando para tantas gerações.
Então chegou a hora mais esperada do dia: a massagem.
A recepção já começou com os parabéns da recepcionista. E fiquei pensando como é curioso fazermos isso com tanta naturalidade. Desejamos felicidade a alguém que nunca vimos antes simplesmente porque aquele é o dia dela.
Um chá, luz baixa, sala climatizada, escalda-pés, maca aquecida e trinta minutos reservados para relaxar.
Esse era o plano. Mas a realidade mostrou uma coleção de tensões acumuladas nas costas e a certeza de que vou precisar voltar para mais sessões e outros tratamentos.
Mas tudo bem. O objetivo não era sair renovada, era cuidar de mim.
Mais tarde dei uma última volta pelo shopping, desta vez acompanhada por uma amiga. Porque desabafar sem esperar soluções também tem algo de terapêutico.
À noite vieram meu marido, minha filha e um casal de amigos para jantar. Teve vinho, conversa boa, presentes, risadas e aquela sensação confortável de estar cercada por pessoas que fazem parte da minha história.
Quando cheguei em casa, a conversa continuou madrugada adentro. Três gerações de mulheres sentadas falando sobre a vida. Uma com 20 anos. Outra com pouco mais de 30. E eu, com os meus 47 completos.
Assuntos simples. Histórias simples. Momentos simples. Mas talvez sejam justamente eles que recarreguem a energia da vida.
Passei anos acreditando que aniversários precisavam ser especiais para serem memoráveis. Neste ano descobri outra coisa.
Às vezes, tudo o que a gente precisa é um dia inteiro para fazer aquilo que gosta, sem culpa, sem pressa e sem precisar ser nada além de si mesma.
E esse foi o meu melhor presente. Então um beijo e até o próximo Check-in da Lau.
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