Passamos o bastão.
Pouco a pouco, as pessoas foram chegando. Dezenas delas. O termômetro marcava quase 35 graus, e aquela sensação de calor europeu que os jornais vêm noticiando por toda parte já era perceptível. Felizmente, encontramos uma sombra agradável sob uma enorme árvore.
Pouco a pouco, começamos a reconhecer rostos e histórias. Franceses, brasileiros, americanos, canadenses, indianos — e a lista continua. Ao longo de sete anos, passaram por nossos grupos pessoas de mais de oitenta nacionalidades.

Pouco a pouco, também fomos conhecendo pessoas que trabalham em organizações não governamentais no combate ao tráfico humano e no apoio a refugiados; cristãos das mais diversas tradições; líderes religiosos, incluindo pastores; e, ao mesmo tempo, amigos budistas, muçulmanos, ateus e agnósticos.
Pouco a pouco, encontrei doutores, estudantes dos mais variados níveis, cientistas, jornalistas, professores e profissionais das mais diversas áreas. Pessoas de diferentes idades — dos mais jovens aos aposentados. Conhecemos refugiados que encontraram espaço em nossos grupos e que hoje se sentem acolhidos, integrados à sociedade, trabalhando, construindo novas vidas e falando francês.


Tudo começou sem estratégia, sem algoritmos, sem marketing e sem publicidade. Havia apenas um desejo simples: ajudar pessoas a se integrarem à sociedade por meio da cultura, dos idiomas e da amizade. Queríamos oferecer um espaço onde todos fossem bem-vindos e respeitados; um lugar para conversar sobre filosofia, história, espiritualidade, história da Igreja e tantos outros temas que surgiam naturalmente ao redor de uma mesa.
Com o tempo, sem que percebêssemos, a iniciativa ganhou forma, cor e significado. Quando nos demos conta, estávamos conectados a dezenas de cafés e restaurantes da cidade, hotéis, associações, igrejas de diferentes tradições, escolas de idiomas e profissionais das mais diversas áreas: dentistas, advogados, médicos, tradutores e muitos outros.


Construímos amizades com os irmãos de Taizé e com pessoas das mais variadas trajetórias. Gente ligada à arte, à culinária, à educação, à ciência e à espiritualidade.
Grupos começaram a entrar em contato conosco. Recebemos visitantes ligados ao Consulado dos Estados Unidos, diplomatas interessados em palestras sobre a história da cidade. Recebemos líderes religiosos vindos de lugares tão distantes quanto Kuala Lumpur, interessados em conhecer a história de Irineu de Lyon e do apóstolo João. Universidades norte-americanas quiseram entender o que estava acontecendo e por que uma comunidade tão diversa continuava crescendo de forma tão orgânica.


Aprendemos algo importante ao longo desses anos.
É possível reunir pessoas de dezenas de culturas e idiomas diferentes ao redor da mesma mesa.


É possível, mesmo em um dos países mais seculares do mundo, conversar sobre espiritualidade de forma respeitosa, aberta e humana.
É possível que pessoas como eu e minha esposa, cristãos, compartilhem honestamente sua própria jornada de fé inspirada nos ensinamentos de Jesus, sem proselitismo, sem agendas ocultas e sem tentar impor convicções a ninguém.
É possível ver amizades genuínas nascerem entre pessoas que pensam de maneira muito diferente.
Nesta semana, por exemplo, um querido amigo muçulmano me abraçou com lágrimas nos olhos e disse que sentiria saudades de nós. Não por causa de debates religiosos, mas porque encontrou acolhimento, amizade e apoio em momentos difíceis de sua vida.


É possível ver um centro cultural protestante abraçar nossos projetos e, ao mesmo tempo, receber ateus e agnósticos franceses como voluntários para ajudar estrangeiros a aprender a língua francesa e compreender melhor a cultura local.
É possível, em um mundo marcado por divisões e polarizações, enxergar pequenos lampejos de esperança.
Passamos o bastão.
Em breve deixaremos para trás aquilo que hoje envolve aproximadamente duas mil pessoas, quase quatrocentos participantes por semana e cerca de oitenta voluntários. Um projeto que nunca nasceu com a intenção de ser um projeto, mas que, ao longo dos anos, se tornou uma comunidade.
Agora essa comunidade seguirá adiante sob a liderança de uma francesa e de uma equipe diversa, mantendo o mesmo DNA que lhe deu origem.
Enquanto isso, Johnna e eu iniciaremos uma nova etapa. Durante o próximo ano estaremos dedicados a palestras, workshops e seminários com estudantes, empresas, associações, organizações não governamentais, igrejas e comunidades das mais diversas naturezas.


Continuaremos refletindo sobre uma convicção simples: quando aprendemos a enxergar a dignidade do outro, as diferenças deixam de ser muros e podem se transformar em pontes. Descobrimos que aquilo que nos une costuma ser maior do que aquilo que nos separa.
Quem sabe uma das grandes tarefas do nosso tempo seja justamente esta: construir pontes onde outros insistem em erguer barreiras.
Ao olhar para trás, percebemos que a experiência mais transformadora talvez nunca tenha sido a organização de eventos ou a construção de redes, mas a descoberta de que pessoas muito diferentes podem compartilhar a mesma mesa, ouvir umas às outras e caminhar juntas sem abrir mão de suas convicções.
Que a paz, a reconciliação e a esperança encontrem espaço em nossos contextos cotidianos, onde quer que estejamos.
Até a próxima,
Fábio
Collonges-au-Mont-d’Or
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Uma resposta
Seu trabalho é incrível e difícil descrever o quão importante é para cada pessoa alcançada pelo amor incondicional que vcs tem dedicado, por todos esses anos.
Deixo aqui este texto:
“— Se vocês amam somente aqueles que os amam, o que é que estão fazendo de mais? Até as pessoas de má fama amam as pessoas que as amam. E, se vocês fazem o bem somente para aqueles que lhes fazem o bem, o que é que estão fazendo de mais? Até as pessoas de má fama fazem isso. E, se vocês emprestam somente para aqueles que vocês acham que vão lhes pagar, o que é que estão fazendo de mais? Até as pessoas de má fama emprestam aos que têm má fama, para receber de volta o que emprestaram. Façam o contrário: amem os seus inimigos e façam o bem para eles. Emprestem e não esperem receber de volta o que emprestaram e assim vocês terão uma grande recompensa e serão filhos do Deus Altíssimo. Façam isso porque ele é bom também para os ingratos e maus. Tenham misericórdia dos outros, assim como o Pai de vocês tem misericórdia de vocês.”
Lucas 6:32-36 NTLH