A Granja Comari: A Neblina e os Helicópteros!

Na Granja Comari, ainda se ouvem os passarinhos e os galos que cantam pela manhã, mas a neblina essa é impiedosa e ao final da tarde, melhor na fazer atividade física no gramado tão verde e natural.
Os helicópteros tomam conta do céu e celebridades ansiosas chegam por um contrato, para uma foto, um autógrafo, um almoço com todos os jogadores, ou conhecer o estrangeiro mais brasileiro do momento, Carlo Ancelotti.
Mas algo não está bem explicado, alguns jogadores  precisam vir à público se explicar por que são “estrangeiros” que só conhecemos pela televisão e com mantos que não tem nada de verde e amarelo.
A Seleção Brasileira já não entra em campo causando aquele frio na barriga de antigamente. Não mesmo!
Antes, bastava ouvir a vinheta da transmissão, ver a camisa amarela surgindo no túnel e o país inteiro parecia acreditar que algo grandioso estava para acontecer. Não sei se foi o 7X1 traumático, mas ainda não se encaixaram, não se conhecem para adivinhar pensamentos, nem melhor posição no campo. Não falam o mesmo idioma, a palavra paixão,  torcida apaixonada, que veste a camisa e grita pedindo gol.
Hoje, a sensação é diferente. O torcedor assiste mais por obrigação afetiva do que por esperança verdadeira.
Nem mesmo a chegada de Carlo Ancelotti conseguiu devolver imediatamente aquela confiança perdida. Há respeito pelo currículo, claro. Mas um tanto de desconfiança. Quem apanha não esquece!
Um treinador vencedor, multicampeão, acostumado aos maiores clubes do planeta. Mas futebol de Seleção não vive apenas de currículo pendurado na parede.
Vive de identidade. E talvez seja exatamente isso que esteja faltando ao Brasil: uma cara, uma alma, um time que faça o torcedor acreditar novamente.
Os jogadores parecem ótimos nomes separados, mas raramente convencem juntos.
Muitos deles brilham na Europa, até vendem suas camisas, com torcedores por seus clubes,  patrocinadores e seguidores, mas quando vestem a camisa da Seleção transmitem uma estranha sensação de distância.
Falta liderança, sobra protocolo. Falta aquele olhar de quem entende o peso da camisa. E o mais duro talvez seja isso: não se trata apenas de jogar mal. É não passar confiança.
O torcedor brasileiro sempre perdoou limitações técnicas quando enxergava entrega. A Seleção de 82 não ganhou Copa, mas ganhou eternidade.
Já algumas seleções recentes parecem não ganhar nem carinho. E isso dói mais do que derrota.
Em diversas posições, na articulação de jogadas, na dinâmica de oito jogos de mata mata, ainda não se tem a confiança, a raça,  a certeza da entrega. Pode acontecer? Podemos ganhar? Seremos Campeões?
A graça do futebol é que ele é imprevisível. E tudo é possível.  Mas essa seleção precisa demais de torcedores, de apoio, e de menos helicópteros.
Enquanto isso, o futebol brasileiro segue sua rotina impiedosa. A Copa termina e os clubes voltam quase sem respirar. Alguns retornarão fortalecidos, outros desmontados. Porque o futebol sul americano virou uma eterna vitrine de aeroporto. Surge um garoto habilidoso com toques refinados e dribles mirabolantes, e sem perda de tempo aparecem empresários, cifras em euro e o elenco começa a ser desmontado antes mesmo de amadurecer.
A Libertadores e a Sul Americana viram torneios de resistência emocional. Quem consegue manter elenco competitivo por mais de seis meses já faz milagre administrativo. O torcedor compra camisa em janeiro e em julho já precisa se despedir do principal jogador.
E quem mais sofre nesse processo são justamente os clubes menores. Os grandes ainda sobrevivem com televisão, patrocínio e bilheteria. Já as equipes pequenas vivem da coragem e das categorias de base. Base essa que, muitas vezes, é negligenciada, tratada como despesa e não como patrimônio. Quantos talentos não se perdem em campos ruins, estruturas precárias e promessas abandonadas?
É triste perceber que o futebol brasileiro continua produzindo talento quase por insistência cultural, não por planejamento.
Por isso, atletas experientes com histórias vitoriosas e dedicados à continuidade como Marcos Vizzolli, símbolo de uma geração do São Paulo Futebol Clube, constroem o futuro, com respeito e compromisso.  Um período em que talvez houvesse menos marketing e mais pertencimento. Jogadores que carregavam no semblante a responsabilidade de representar um clube, uma torcida, e todos os pequenos torcedores que se miravam no seus exemplos.
Hoje, muitas vezes, parece que os vínculos duram menos que um contrato de publicidade.
O futebol brasileiro continua vivo, apaixonante, caótico e profundamente humano.
Mas vive um momento de reconstrução emocional. A Seleção perdeu parte de sua mística. Os clubes perderam continuidade.
E os clubes de pequeno porte, e pouco investimento lutam para não desaparecer entre calendários cruéis e cofres vazios.
Ainda assim, em algum campinho esquecido do interior, deve existir um menino chutando bola descalço, sonhando vestir a camisa amarela. E decorando o nome de seus ídolos e sonhando com as grandes Arenas, e imaginando o futuro, quase pertinho.
E talvez seja justamente essa esperança teimosa essa capacidade quase irresponsável de continuar acreditando, que ainda mantenha o Futebol Brasileiro, sendo a grande paixão que já mobilizou esse país.

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