Cuidar de uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista, em alguns casos, é viver em atenção constante. A rotina gira em torno de prever o imprevisível, ajustar o ambiente, evitar estímulos que parecem inofensivos aos outros, mas que, para aquela criança, podem ser verdadeiros gatilhos.
Às vezes, é uma luz forte. Um barulho repentino. Uma mudança de rota.
Foi durante a madrugada, em São Bernardo do Campo, que um portão se abriu — e a criança saiu. Sozinha.
Sem conseguir dizer quem era ou onde morava. Era uma criança com autismo não verbal.
Poderia ter sido o início de uma tragédia.
Mas foi o início de uma lição.
Uma equipe da Guarda Civil Metropolitana avistou a criança caminhando pela Avenida Piraporinha e percebeu sua vulnerabilidade. O CCO (Centro de Controle Operacional) foi acionado. Com o reforço, chegou a GCM 3ª Classe Dayana.
A tentativa inicial foi levar a criança dentro da viatura. Mas ela resistiu – O pânico falava mais alto.
Dayana entendeu, ali, que era preciso respeitar o tempo da criança. Caminhar junto.
E foi isso que ela fez. A pé, por quatro quilômetros, de mãos dadas.
As viaturas seguiram em silêncio, em comboio, respeitando aquele passo lento — mas agora protegido.
Quando é possível, essa escolha muda tudo
Sabemos que nem toda situação permite uma abordagem assim. Mas há momentos em que a decisão de acolher é o que garante que uma situação ou ocorrência não se torne um trauma.
Dayana relatou que, ao perceber que a criança não entraria no carro, seu foco se tornou fazê-la sentir-se segura.
A imagem da guarda caminhando de mãos dadas com a criança me impactou profundamente. Havia presença. Escuta. Respeito.
E tudo isso importa — importa muito.
Porque aquela criança não foi apenas levada para casa. Foi compreendida em sua forma de reagir ao mundo.
E isso, para quem convive com o TEA, é raro. E valioso.
Atendimento humanizado exige preparo
Essa ocorrência reforça algo que já sabemos — e que precisa sair do papel: as forças de segurança pública precisam estar preparadas para lidar com pessoas com deficiência, especialmente pessoas com TEA.
Não se trata apenas de boa vontade. Trata-se de formação contínua, protocolos de abordagem adaptados e empatia estruturada em conhecimento.
O Manual do CNJ sobre o atendimento de pessoas com TEA traz diretrizes claras: é essencial que os agentes saibam reconhecer comportamentos atípicos, ajustar sua comunicação e adotar medidas que respeitem a condição da pessoa atendida.
Essa vigilância atenta, que cuida sem invadir, que nota sem julgar, pode evitar tragédias. E salvar vidas — como aconteceu naquela madrugada.
Era escuro, perigoso, silencioso. Mas a criança voltou para casa amparada, não apenas fisicamente, mas emocionalmente.
Hoje, como mãe, eu envio à toda a equipe da GCM de São Bernardo do Campo que participou da operação, em especial à GCM 3ª Classe Dayana, um grande abraço, todo meu respeito e admiração.
Um beijo e até a próxima quarta-feira.
Juçara Baleki
@querotratamento
Fontes:
https://oantagonista.com.br/brasil/policial-caminha-4-km-com-crianca-autista-perdida-que-se-recusou-a-entrar-na-viatura/
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