Eu sempre achei curioso quando conto que estou planejando uma viagem e alguém pergunta: “Mas você já foi para lá, não?”. Como se conhecer um destino uma vez fosse suficiente. Como se viajar fosse uma espécie de coleção de lugares que precisamos riscar do mapa antes de seguir para o próximo. E confesso que, durante muito tempo, também pensei assim. Afinal, viagem não é barata. Se estamos gastando dinheiro, tempo e planejamento, por que não aproveitar para conhecer um lugar novo? Foi exatamente esse raciocínio que apareceu quando começamos a planejar a viagem de setembro. Paris e Londres já estavam entre as opções, mas havia Amsterdã, um destino que eu ainda não conheço. A ideia parecia perfeita: conhecer um país novo, incluir mais um lugar na lista. Só que, olhando para o mapa e para o tempo que teríamos, percebemos que seriam apenas dois dias e que passaríamos uma boa parte deles nos deslocando de Londres para Amsterdã e depois de Amsterdã para Paris, que será o início e o fim da viagem. Então Amsterdã ficou para outra oportunidade. E, pela primeira vez, não senti que estávamos perdendo alguma coisa.
Na verdade, senti o contrário. Senti liberdade. Liberdade para dizer: desta vez, eu quero voltar. Quero olhar Paris novamente, mas com os olhos da Laura de 47 anos. A Laura que bancou financeiramente mais uma viagem internacional. A Laura que organizou, pesquisou, escolheu e comprou a passagem. A Laura que hoje entende um pouco melhor o que quer de uma viagem. Não preciso justificar para ninguém por que escolhi Paris outra vez. Nem Londres. Não preciso apresentar uma lista de destinos inéditos para provar que aproveitei bem o meu dinheiro. Quero simplesmente acordar em Paris e poder dizer: “Vamos?”. Sem roteiro fechado. Sem check-list. Sem a obrigação de cumprir todos aqueles lugares que aparecem nas listas de “o que você precisa conhecer”. Quero andar. Parar. Entrar onde tiver vontade. Sentar em um café. Rever uma rua. Comer alguma coisa. Talvez fazer absolutamente nada por algumas horas. E tudo bem.
Londres também quero explorar com calma. Quero conhecer pubs, entrar em livrarias, visitar museus, andar pelas ruas e descobrir outras partes da cidade. Não necessariamente aquelas que estão bombando nas redes sociais. Quero olhar para tudo com menos expectativa e mais curiosidade. E talvez essa seja uma das mudanças mais interessantes na forma como estou viajando. Eu não quero mais chegar a um lugar com a sensação de que preciso aproveitar cada minuto para conhecer tudo. Quero chegar e experimentar a sensação deliciosa de reconhecer uma esquina. Saber onde estou. Passar novamente por um lugar que já conheço. Comprar pão em uma padaria. Sentar em um banco. Observar as pessoas. Fazer coisas banais, mas com a sensação de que, por alguns dias, aquela cidade também é um pouco minha.
Eu costumo dizer que gosto de viajar para me sentir local. E talvez seja justamente por isso que gosto tanto de voltar. Existe uma intimidade diferente quando você reconhece as ruas, sabe onde quer voltar, lembra daquele café, daquela praça, daquela loja. É quase como construir uma pequena rotina longe de casa. E tem uma coisa engraçada nisso: às vezes sinto que consigo me sentir mais local em uma cidade que visitei poucas vezes do que na minha própria cidade, Taboão da Serra. Talvez porque, quando estou viajando, eu me permito olhar. Presto atenção. Ando sem a pressa da rotina. Me interesso pelo que está ao meu redor. Em casa, muitas vezes, passo pelos mesmos lugares sem realmente enxergá-los.

Foi assim também com Nova York. No ano passado, passei oito dias por lá com meu marido. Era um sonho que eu nem sabia que tinha e, antes mesmo de terminar a viagem, eu já pensava em voltar. E voltei para casa com aquela sensação de que ainda havia muito para descobrir. Não porque eu não tivesse aproveitado. Justamente porque aproveitei. Descobri que uma cidade pode continuar interessante depois que você já viu alguns dos seus cartões-postais. Que conhecer não significa esgotar. Que voltar pode ser tão emocionante quanto chegar pela primeira vez.
Talvez seja por isso que essa viagem de setembro tenha ganhado um significado diferente para mim. Ela não é apenas mais uma viagem internacional. É também uma espécie de exercício de escolha. Eu e minha filha decidimos abrir mão de um destino novo para ter mais tempo nos lugares que queremos revisitar. E, dentro dessa viagem em família, também quero experimentar uma pequena viagem sozinha. Em Londres, teremos um momento em que cada uma poderá fazer o que quiser, e eu quero aproveitar algumas horas só comigo. Pode ser um museu. Uma livraria. Um pub. Um café. Uma caminhada sem destino definido. Talvez eu descubra alguma coisa incrível. Talvez não. E está tudo bem. O objetivo não é provar que consigo viajar sozinha. É perceber como é bom poder escolher o que fazer sem precisar negociar o próximo passo com ninguém.
Acho que isso também tem a ver com tudo o que venho aprendendo nos últimos tempos. Durante muito tempo, coloquei outras pessoas, compromissos e necessidades no centro. Agora estou aprendendo que me colocar no centro não significa deixar ninguém de lado. Significa considerar o que eu quero também. Até na hora de escolher um destino. Até na hora de decidir se quero conhecer um país novo ou voltar para um lugar que já amo. Até na hora de passar algumas horas sozinha em Londres. Não quero mais transformar cada escolha em uma justificativa. Quero escolher.
E talvez viajar seja uma das formas mais bonitas de experimentar essa liberdade. Porque existe uma expectativa enorme de que precisamos conhecer o novo o tempo inteiro. Um país a mais. Uma cidade a mais. Uma atração a mais. Uma foto diferente. Um lugar que está viralizando. Mas quem disse que viajar precisa ser assim? Quem disse que voltar é desperdício? Quem disse que eu preciso conhecer dez lugares se quero passar mais tempo em dois? Quem disse que uma viagem só vale quando conseguimos contar quantos pontos turísticos visitamos?
Eu gosto da ideia de chegar a um lugar e, depois de alguns dias, pensar: eu quero voltar. Não como uma derrota por não ter conhecido tudo. Mas como um sinal de que alguma coisa ali me tocou. E isso, para mim, também é uma forma de liberdade. Escolher o novo. Escolher o conhecido. Escolher voltar. Escolher não fazer nada. Escolher caminhar sem destino. Escolher uma experiência só minha no meio de uma viagem em família.
No fim, acho que estou descobrindo que viajar não é mais sobre preencher um mapa. É sobre construir uma relação com os lugares. E, talvez, com a pessoa que eu sou quando estou neles.
Aos 47 anos, depois de bancar e organizar mais uma viagem internacional, acho que essa é uma das maiores descobertas que poderia fazer: não preciso conhecer o mundo inteiro. Quero ter liberdade para escolher onde quero estar. E, quando encontrar um lugar que me faça bem, quero poder voltar.
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