Há duas semanas, estávamos no Havaí. Enquanto as crianças nadavam no mar, eu cuidava das nossas mochilas. O dia estava perfeito: céu azul, vento gostoso e aquela natureza que parece ter sido cuidadosamente desenhada para nos lembrar de como o mundo pode ser bonito.
Foi então que, ao meu lado, percebi uma garota se aproximar. Ela colocou a toalha na areia, pegou o celular e olhou para ele. Não olhou para o mar. Não olhou para o céu. Não olhou ao redor. Depois, simplesmente entrou na água.
Aquela água cristalina, sob um céu azul, com o vento soprando suavemente, parecia um convite para esquecer qualquer coisa que não fosse aquele momento. Mas ela parecia não perceber nada disso.
Assim que entrou no mar, colocou o celular debaixo d’água e começou a gravar.
Eu sou de uma geração em que relógio à prova d’água já era quase um artigo de luxo. Hoje, se alguém me disser que posso mergulhar meu celular na água, provavelmente vou pensar duas vezes antes de fazê-lo — a menos que me deem uma garantia por escrito de que, se a tal “prova d’água” não funcionar, eles me darão outro celular.
Mas voltemos à garota. Continuei observando.
Ela tirou o celular da água e voltou a mergulhar, dessa vez com o aparelho junto ao rosto. Filmava, filmava, filmava. Colocava a cabeça para fora da água, mas continuava sem olhar para o mar. Não olhava para o céu azul. Não olhava para os barcos que passavam. Não olhava para a paisagem. Não olhava para a beleza que estava literalmente diante dos seus olhos. Ela olhava para a tela.
Foi então que percebi que estava usando o próprio celular como um espelho. Começou a fazer uma selfie, girando o corpo enquanto filmava. E ali estava a ironia.
Ela estava cercada por uma das paisagens mais bonitas do mundo, mas a única coisa que parecia interessá-la era a imagem daquela paisagem que aparecia na tela do seu celular — com ela, naturalmente, no centro de tudo.
Uma espécie de Havaí em modo selfie. Depois de alguns minutos, ela terminou.
Olhou para o celular, conferiu se havia gravado tudo, olhou para a toalha que estava na areia e caminhou de volta para ela. E assim terminou o seu momento em uma das praias mais conhecidas do Havaí: Waikiki.
Fiquei pensando naquela cena. Eu uso a internet. Tenho celular. Uso Instagram, WhatsApp, Facebook e todas essas ferramentas que fazem parte da vida moderna. Portanto, não estou aqui para dizer que a tecnologia é ruim.
O problema não é a tecnologia.
O problema começa quando ela deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar todos os espaços da nossa vida. Pense em uma pessoa que acorda às sete da manhã. Antes mesmo de sair da cama, a primeira coisa que faz é olhar para o telefone. Depois vai tomar café. E sabe o que faz enquanto toma café?
Confere os e-mails, as mensagens, o Instagram, o Facebook, as notícias e qualquer outra rede social que esteja ao alcance dos dedos. Depois entra no carro, pega um ônibus ou um metrô. Provavelmente coloca o Spotify para tocar. E, se tiver oportunidade, aproveita para conferir alguns reels, vídeos ou mensagens. Chega ao trabalho.
Passa boa parte do dia diante de uma tela: e-mails, computador, reuniões pelo Zoom ou Teams, mensagens, documentos, planilhas e aplicativos.
E, entre uma atividade e outra, o celular, que está ao lado da mesa ou no bolso, continua sendo consultado. Só para ver se chegou alguma mensagem. Só para conferir os likes. Só para responder um comentário. Só para ver “rapidinho” o que está acontecendo.
Chega a hora do almoço. Finalmente, ele pensa: “Agora é meu free time.”
E o que significa esse tempo livre?
Mais celular. Mais vídeos. Mais mensagens. Mais redes sociais. Depois volta ao escritório.
Novamente, e-mails, reuniões, computador, mensagens e aplicativos.
No caminho de volta para casa, mais um “free time”. É hora de WhatsApp, Instagram, vídeos, comentários, mensagens e tudo aquilo que ficou esperando por algumas horas.
Chega em casa.
Talvez converse com a família ou esteja sentado à mesa enquanto segura o celular. Talvez assista televisão enquanto olha o celular. E então chega a noite.
Vai para a cama. E, antes de dormir, pensa: “Agora vou relaxar um pouco.”
E pega o celular.
Mais alguns minutos de redes sociais. Mais algumas mensagens. Mais alguns vídeos.
Até que o sono finalmente chega. E assim termina mais um dia. Um dia inteiro conectado.
E, paradoxalmente, talvez um dia inteiro desconectado daquilo que estava acontecendo ao nosso redor. Talvez o problema não seja o celular, nem o Instagram, nem o WhatsApp, nem o Spotify, nem os vídeos, nem as redes sociais. Tudo isso faz parte do mundo em que vivemos e, quando usados com equilíbrio, podem nos aproximar, informar, divertir e até nos ajudar a trabalhar melhor.
Naquele dia, em Waikiki, aquela garota provavelmente levou para casa imagens lindas daquele mar. Talvez tenha publicado algumas delas. Talvez tenha recebido dezenas de curtidas. Talvez, daqui a alguns anos, olhe para aquelas fotos e se lembre daquela viagem. Mas fico pensando em uma coisa:
Será que ela se lembrará de como era estar ali?
Do vento no rosto. Da temperatura da água. Do barulho do mar. Do céu azul. Dos barcos passando. Ou será que vai se lembrar principalmente da tela?
Eu não sei. Mas talvez essa seja uma pergunta que todos nós deveríamos fazer de vez em quando: Quando a vida estiver acontecendo diante dos nossos olhos, será que teremos coragem de deixar o celular de lado para simplesmente vivê-la?
Porque algumas das melhores experiências da nossa vida não precisam ser gravadas, precisam apenas ser vividas.
Fábio
Chicago
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