Entre Chronos e Kairos: Nem Antes, Nem Depois — Quando o Tempo Certo Chega

Foram dias intensos, mas de muita, muita alegria.

Acabo de voltar da Turquia, depois de esperar quase 20 anos por esta viagem. Há um ditado popular no Brasil que diz: “ou me caso ou compro uma bicicleta”. Eu então me decidi casar — e não ir à Turquia fazer uma viagem pelas igrejas do Apocalipse, envolvendo no mínimo sete cidades.

Depois disso, a vida nunca me levou para os lados da antiga Ásia Menor. Até que, de forma quase inesperada, um grupo de pessoas começou a se reunir. Um amigo em comum nos convidou para esse grupo de mentoria, onde passamos a nos encontrar uma vez por ano.

Ali, cada um traz sua caminhada. Alguns envolvidos com projetos culturais e artísticos, outros ligados ao cinema, ao teatro, à ajuda humanitária. Há também quem atue na área da saúde, no apoio a refugiados, gente que transita entre igrejas, centros de convenções, mundo dos negócios e ONGs.

Mas, no meio de tanta diversidade, há algo que nos une: a mensagem da Boa Notícia — o Evangelho simples, centrado na pessoa de Jesus, como encontramos nas narrativas dos Evangelhos. É por meio dessas lentes que seguimos tentando olhar a vida, com mais amor e mais sentido.

Há também aqueles que compartilham a difícil tarefa de apoiar pessoas em contextos onde igrejas são perseguidas. Outros estão envolvidos em projetos com pessoas menos favorecidas. É um grupo espalhado pelo mundo — com os pés no Brasil, na África, nos Estados Unidos, Jordânia, Itália, Indonésia, França — e com passos que alcançam muitos outros lugares no planeta.

Por isso, a minha alegria era — e ainda é — difícil de descrever. Participar de um grupo assim nos inspira e, ao mesmo tempo, nos encoraja mutuamente na troca de experiências.

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Começamos em Istambul. Entre reuniões, longas conversas, kebabs, cafés turcos, chá, Turkish delight e baklava, tive a oportunidade de compartilhar um pouco da história de Bizâncio, Constantinopla e Istambul — atravessando os impérios grego, romano e otomano.

Também conversamos sobre as disputas de poder religioso, como aquelas que marcaram espaços como a Hagia Sophia e a Mesquita Azul. E, ao mesmo tempo, refletimos sobre como Jesus, com seus ensinamentos, nunca entrou nesse tipo de disputa.

A viagem seguiu, e a intensidade de cada encontro foi marcada por horas e horas de conversa, mas também por uma jornada histórica que, para mim, será inesquecível.

Comecei a falar em Éfeso, próximo ao anfiteatro romano — e, enquanto falava, alguns brasileiros que estavam de passagem se aproximaram para ouvir. Pequenos encontros que a gente não planeja, mas que ficam.

Seguimos por Esmirna — de onde vem Irineu de Lyon — depois Pérgamo, com seu impressionante anfiteatro, passando por Tiatira e Sardes, com vestígios do século II, lojas e uma das maiores sinagogas daquele período.

Terminamos por Filadélfia, Laodiceia e a incrível cidade de Hierápolis, onde o apóstolo Filipe foi martirizado, com um anfiteatro que ainda hoje impressiona.

Olhando para trás, percebo que dificilmente teria vivido essa experiência se tivesse vindo à Turquia há 20 anos. Faltariam camadas. Faltaria caminho. Faltaria o que vivi nesses últimos anos em Lyon, onde as conexões com a igreja do século II, tão ligadas à Ásia Menor, foram ganhando sentido.

Mas, talvez mais importante do que isso, é reconhecer que essa experiência não teria sido a mesma sem esse grupo. Foram eles que deram profundidade, escuta e partilha a cada passo da viagem.

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Tivemos também a ajuda generosa de um amigo que veio de Oxford e dirigiu por horas, nos conduzindo por essas cidades carregadas de história.

Na vida, aprendemos que, em grego, existem dois tipos de tempo: chronos, o tempo cronológico… e kairos, o tempo daquilo que parece acontecer na hora certa.

O kairos é quando tudo se alinha de uma forma difícil de explicar — o momento, as pessoas, o lugar. Não porque seja perfeito aos nossos olhos, mas porque faz sentido de um jeito mais profundo.

Essa foi a minha experiência.

Espero, de todo o coração, que ao ler este texto você perceba que foram quase 20 anos de espera para viver algo assim. E talvez seja assim mesmo a jornada da vida.

Somos, muitas vezes, impacientes. Hoje, com a tecnologia, tudo parece precisar acontecer imediatamente. Vemos alguém ler uma mensagem no WhatsApp e não responder na hora — e isso já nos inquieta. Sentimos que precisamos estar sempre presentes, sempre ativos, como se o silêncio ou a pausa nos fizessem perder algo no Instagram.

Tudo é rápido. Tudo é urgente. Vivemos como se estivéssemos sempre correndo atrás do tempo perdido…

Mas, talvez, a vida não seja apenas sobre chegar mais rápido.
Talvez seja sobre aprender a reconhecer o tempo certo.

Há experiências que não acontecem quando queremos —
acontecem quando estamos prontos.

E, quando chegam,
trazem consigo um sentido que não poderia ter sido antecipado.

Fábio

Collonges au Mont D’Or

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Uma resposta

  1. Tempo certo é o tempo determinado por Deus. E que também é sinônimo de festa. E que o Senhor continue conduzindo os passos vocês, uma vez que o acaso não existe mas sim propósito.

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