Olá amigos,
Parece que Japão e Brasil poderão se encontrar na próxima fase. O Japão está fazendo um ótimo Mundial. Pois bem, minha filhinha Julia nasceu no Japão e nossa família tem um carinho enorme pelo país.
Aliás, vocês viram os torcedores japoneses limpando o estádio após os jogos? Na realidade, essa não é uma prática exclusiva dos torcedores. Os atletas japoneses também costumam deixar os vestiários impecáveis após partidas em Copas do Mundo e Jogos Olímpicos, muitas vezes acompanhados de uma pequena mensagem de agradecimento.
Eu acho isso fantástico.
Quando morávamos no Japão, lembro-me de que, ao final das aulas, a professora da Sophia dizia apenas uma palavra: sooji, que significa limpeza. Imediatamente, todas as crianças começavam a guardar os materiais, recolher o lixo, organizar as caixas e varrer o chão.
Foi algo que me chamou a atenção desde a primeira vez que vi.
As crianças tinham apenas quatro ou cinco anos de idade. Eu observava a mesma dinâmica também na igreja. Elas brincavam, corriam, conversavam e participavam das atividades normalmente. Mas bastava a professora anunciar que o encontro havia terminado e que era hora de arrumar a sala para que todas começassem a limpar imediatamente, como se aquilo fosse uma continuação natural das brincadeiras ou parte da programação.
Na realidade, eu admiro profundamente a cultura japonesa e nunca vi nada igual.
Um dos meus amigos, Suzuki, e eu fazemos uma troca de idiomas há nove anos. Durante trinta minutos por semana, ele fala comigo em japonês durante quinze minutos, e depois, eu falo com ele em espanhol durante quinze minutos também. Nos primeiros dois anos fazíamos isso pessoalmente, em um Coffee Shop na cidade de Fujisawa. Nos últimos sete anos, temos feito nossas conversas pelo WhatsApp.
Todas as quintas-feiras.
Eu não preciso escrever para perguntar se ele virá. Não preciso mandar mensagem dizendo que já cheguei ou que estou esperando.
Às 15h, pontualmente — nem um minuto antes, nem um minuto depois — o meu WhatsApp começa a tocar. Eu olho para o relógio, atendo a chamada e lá está o Suzuki.
A disciplina, a honestidade, a seriedade e o senso de responsabilidade para com o grupo fazem parte dessa cultura milenar. Lembro-me também de uma amiga que perdeu um anel de diamante no metrô. Ela acreditava que jamais o encontraria novamente. No entanto, ao procurar o setor de achados e perdidos, o anel estava lá.
Sempre pensei sobre isso.
Alguém encontrou o anel e foi honesto o suficiente para entregá-lo.
Alguém recebeu o anel e foi honesto o suficiente para guardá-lo.
Pois bem, talvez enfrentemos o Japão na próxima fase. Nossa família está dividida entre muitos países e muitas histórias. Mas, como escrevi na coluna anterior, já tomamos uma decisão: Brasil, Brasil, Brasil!
Dito isso, independentemente do resultado em campo, uma coisa é certa: a cultura japonesa continua nos surpreendendo com uma verdadeira goleada de altruísmo, espírito de equipe e senso de coletividade.
Talvez essa seja uma das grandes lições que podemos aprender com eles. Aprender a cuidar melhor dos espaços que compartilhamos. Aprender a respeitar mais o próximo. Aprender a pensar no bem do grupo, no bem da comunidade e no bem do outro. Porque, em um mundo que frequentemente nos ensina a perguntar “o que é melhor para mim?”, os japoneses parecem nos lembrar de uma pergunta diferente:
“O que é melhor para todos nós?”
E essa talvez seja uma lição tão valiosa quanto qualquer vitória dentro de campo.
Fábio
Collonges au Mont D’Or.
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