Duas Mariolas e uma Tubaína

Até que enfim a Seleção foi convocada.
E confesso: muita gente que conheço não concordou com todos os escolhidos.
Na verdade, talvez essa seja a única unanimidade possível quando o assunto é Seleção Brasileira: Nunca haverá consenso.
Sempre ficará alguém de fora. Sempre existirá um craque esquecido na opinião do torcedor de esquina, do comentarista de rádio ou do sujeito indignado na mesa do bar.
Também é verdade que agradar a todos virou tarefa impossível dentro de um futebol cada vez mais burocrático, estatístico e distante da arquibancada.
Os escolhidos passaram pelas minuciosas exigências do técnico importado, o italiano mais brasileiro que apareceu nos últimos tempos, um homem que tenta compreender um futebol que já não se parece tanto com o Brasil de antigamente.
E talvez esse seja justamente o problema.
Engana-se quem acredita que foi simples encontrar cinquenta nomes competitivos para uma pré-lista.
O Brasil ainda produz jogadores, claro.
Produz muitos. Mas já não produz gênios na mesma velocidade com que o mundo consumia nossos talentos décadas atrás.
Houve um tempo em que a dificuldade do treinador brasileiro era deixar craques de fora.
Hoje, muitas vezes, a missão é encontrar jogadores capazes de decidir partidas grandes sem parecerem apenas peças obedientes de um sistema tático europeu.
O Brasil que revelou Pelé, Garrincha, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Kaká, Roberto Carlos, Cafu, Tostão, Adriano e Carlos Alberto Torres parecia fabricar irreverência em campo.
O improviso era quase patrimônio cultural.
O drible era idioma oficial.
O medo mudava de lado quando o Brasil entrava em campo.
Hoje o futebol mudou. E o Brasil mudou junto.
Muitos meninos promissores deixam o país antes mesmo de criarem barba. Partem cedo demais. São levados ainda crus para centros europeus que moldam atletas disciplinados, fortes fisicamente, obedientes taticamente e, muitas vezes, menos criativos. Não cabe aqui discutir se isso está certo ou errado. O mercado manda mais que a nostalgia.
Antes a Europa comprava jogadores prontos; hoje compra matéria-prima.
E talvez esteja aí uma das razões para a Seleção já não carregar a mesma identidade.
Os clubes brasileiros, que antes formavam ídolos completos diante dos próprios torcedores, agora servem quase como vitrines temporárias.
O jovem mal aprende a cantar o hino do clube e já atravessa o oceano em contratos milionários.
A camisa pesa menos quando a relação dura tão pouco.
Por isso causa estranheza e até certa ternura, quando alguns desses atletas falam em retorno. Recentemente ouvi Gabriel Jesus manifestar desejo de voltar ao Palmeiras. E aparentemente o clube não descarta a possibilidade. O problema é que a memória afetiva do torcedor costuma ignorar a matemática cruel dos cofres brasileiros.
É preciso avisar aos atletas “estrangeiros” que a realidade financeira da maioria dos clubes nacionais está longe das cifras europeias ou árabes. Aqui não existe petróleo no vestiário nem cheque infinito no caixa. Algumas diretorias mal conseguem equilibrar folha salarial, estádio, dívida trabalhista e pressão política.
Trazer medalhões de volta pode até render manchete, camisa vendida e aeroporto lotado. Mas custa caro. Muito caro. E definitivamente não custará duas mariolas e uma tubaína.
No fundo, talvez seja essa a maior fotografia do futebol brasileiro atual: um país apaixonado pelo passado, tentando sobreviver economicamente no presente e desesperado para reencontrar um futuro que volte a jogar bola com alegria, irreverência e personalidade.
Porque vencer sempre foi importante.
Mas encantar… ah, isso era o que fazia o mundo parar para assistir ao Brasil.

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