O show que eu vi ninguém filmou

Meu segundo show internacional foi o do Harry Styles. O primeiro tinha sido da Shakira, também no Morumbi, mas faz tanto tempo que só lembro de uma coisa: a chuva.

Desta vez fui muito mais pela minha filha, que é fã de verdade. Eu conheço as músicas, claro. Canto os refrões, me entrego quando a melodia ajuda, mas, como a maioria é em inglês, ainda fico perdida em boa parte das letras. Aliás, fica aqui uma sugestão: bem que os shows internacionais poderiam ter tradução simultânea durante os momentos de conversa com o público. Além do tradicional “muito obrigada” e do “é muito bom estar aqui”, confesso que entendi pouca coisa. Mas senti absolutamente tudo. Alô, inteligência artificial… tenho certeza de que você já consegue resolver isso.

Também fui sem grandes expectativas. Sempre ouvi críticas sobre a acústica do Morumbi e imaginava que a experiência pudesse deixar a desejar. Não deixou.

Achei o estádio lindo. O palco em formato de quadrado ocupava boa parte da pista e fazia o Harry percorrer praticamente todos os lados, aproximando quem estava longe. Eu estava na arquibancada, vendo um Harry pequenininho ao vivo, mas gigante no telão. E isso bastou. As luzes acompanhavam cada batida da música, criando um espetáculo paralelo. Era impossível saber para onde olhar.

Em um dos momentos mais divertidos, Harry assumiu uma cabine de DJ e transformou o estádio em uma grande pista de dança. Também arriscou algumas palavras em português, arrancando gritos da plateia. E ainda havia a orquestra, que deixou algumas músicas ainda mais bonitas. Harry se refere aos músicos carinhosamente como seus “String Players” — ou “jogadores de cordas”, em tradução livre. Um jeito divertido e afetuoso de apresentar quem ajuda a construir toda a emoção do espetáculo.

Falando em palco, outro detalhe chamou minha atenção: que girl power é esse, Harry? A banda é formada por mulheres talentosas que entregam uma presença de palco impressionante. Cada solo, cada arranjo e cada sorriso deixavam a noite ainda mais bonita.

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Nem o show de abertura passou despercebido. Foi diferente, quase uma rave em alguns momentos. Exótico, divertido e com muita personalidade.

No fim, ainda teve fogos de artifício. Mas, como toda experiência, nem tudo foi perfeito.

A saída do estádio foi um verdadeiro teste de paciência. Portões distantes, corredores que afunilavam a multidão e aquele anda, para, anda de novo. Só que, curiosamente, foi nesse caos que comecei a ouvir histórias.

Uma fã contava que tinha feito promessa de ficar sem refrigerante caso Harry não cancelasse o show. Era o último da turnê e, depois de um cancelamento recente, ela tinha medo de não acontecer. No fim, deu tudo certo. Melhor ainda: ganhamos duas músicas-surpresa, tradição entre os fãs mais antigos.

E, como sempre acontece nos grandes shows, o público também deu seu espetáculo.

Os leques coloridos acompanharam uma das músicas em um movimento sincronizado que conquistou até o próprio Harry, que entrou na brincadeira tentando acertar o famoso “vrau”. Descobri depois que esse costume de abrir e fechar leques no ritmo da música não nasceu no Brasil. Ele faz parte da cultura pop, da música eletrônica e da comunidade LGBTQIAPN+. Ainda assim, ver milhares de pessoas fazendo o movimento ao mesmo tempo, ali no Morumbi, foi emocionante.

Mas o momento que mais me arrepiou foi outro. As lanternas dos celulares acesas transformaram o estádio em um céu estrelado. É curioso como um gesto tão simples, repetido por milhares de pessoas, consegue criar uma das imagens mais bonitas de um show. Não depende de tecnologia, de efeitos especiais ou de inteligência artificial. Só de gente vivendo o mesmo momento.

Confesso que só descobri alguns desses detalhes depois, vendo vídeos nas redes sociais. Se soubesse antes, teria levado meu leque também.Aliás, percebi outra cena que ficou na minha cabeça.

Na minha frente estava um casal. Um deles vibrava, cantava, gravava vídeos, vivia cada segundo. O outro permanecia sentado boa parte do tempo, olhando o celular e conferindo o setlist para descobrir quanto faltava para acabar.

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E fiquei pensando como ainda tratamos diferente quando apenas uma pessoa é fã.

Por que quem acompanha o outro precisa apenas esperar o fim? Não seria muito mais bonito tentar viver a alegria de quem está ao lado? A experiência nunca será a mesma, claro. Mas carinho também pode ser demonstrado através da curiosidade.

O mais curioso aconteceu quando cheguei em casa. Revendo os vídeos para escrever este texto, me emocionei. A música Adore You, que durante o show passou quase despercebida em meio à adrenalina, ganhou outro significado na tela do celular.

Acho que foi porque, pela primeira vez, parei para prestar atenção na letra.

“Você acreditaria?
Você não precisa dizer que me ama.
Você não precisa dizer nada.
Você não precisa dizer que é meu.”

Talvez fosse a melodia. Talvez a tradução. Ou talvez eu só estivesse vivendo aquele momento com mais calma.

Na hora do show eu vivi a energia. Em casa, vivi o sentimento. E chorei.

No fim das contas, o saldo da combinação show internacional + Morumbi foi muito melhor do que eu imaginava. Logo eu, que adoro viver experiências, ainda flertava de longe com esse universo. Já tinha assistido ao Jão no Allianz Parque, vivido momentos inesquecíveis em outros shows, mas agora entendi por que tanta gente organiza viagens inteiras para acompanhar um artista.

Saí do estádio pensando no próximo show. Quem sabe mais perto do palco. Quem sabe com um cartaz. Quem sabe tentando chamar a atenção do Harry, que teve dificuldade para entender o nome de uma fã chamada Andressa.

Será que ele conseguiria falar Laura? Fica aí meu novo sonho desbloqueado.

Porque, antes de entrar no Morumbi, eu nem sabia que gostava tanto de show internacional. E descobri da melhor forma possível: vivendo a experiência.

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